30.12.06

INTRODUÇÃO: JESUS, VERDADE QUE LIBERTA

Certo dia, cerca de dois mil anos atrás, Jesus discutia com os judeus sobre um dos mais importantes e fascinantes temas da vida humana: a liberdade. Mais do que tudo, os judeus valorizavam sua condição de homens livres, submissos apenas a Javé e Sua Lei. Porém, apesar do orgulho nacionalista e religioso da nação judaica, Jesus lhes afirmou: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8.32). Mais adiante ele completou: “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (v 36). Nessas preciosas palavras do Filho de Deus encontramos o único elemento capaz de trazer liberdade ao homem: a verdade. E a verdade é o próprio Cristo: “Eu sou o caminho, e a verdade e a vida” (Jo 14.6).

Muitos entendem a liberdade como o direito de fazer tudo o que se quer. Nada mais falso. Satisfazer todos os desejos não significa outra coisa a não ser escravidão a eles, aos desejos, que nem sempre nos conduzem às melhores situações (Pv 14.12). Como Jesus ensina, só há liberdade autêntica onde existe verdade. E por que é assim? É simples: quem conhece a verdade aprende o que é realmente essencial, e descobre o prazer de fazer o que deve ser feito. Paradoxalmente, os únicos homens livres são aqueles que voluntariamente se tornam escravos da verdade. Como todos os demais, o homem livre age, porque o propósito da existência humana é a ação. Entretanto, diferentemente de todos os demais, ele não age movido por interesses egoístas, nem por medo, nem por outro motivo que não seja a certeza de estar fazendo o que é correto. E quem lhe dá tal certeza é a verdade, é o Filho de Deus.

Um dos temas que mais ensejo proporciona à imposição de dogmas infundados e opiniões particulares como regras universais é a sexualidade humana, tão estigmatizada por séculos de imposição de um pensamento ético puritano e castrador. Sem nenhum risco de equívoco, podemos afirmar que a sexualidade humana é um tabu, mesmo na reflexão teológica. O que vemos é tão-somente a repetição infinda de velhas fórmulas moralistas, que escravizam as pessoas, ao invés de libertá-las. A homossexualidade, tema da presente reflexão, é ainda mais relegada aos porões do fazer teológico. Quando inquiridos acerca do assunto, uma parcela majoritária dos teólogos e expositores cristãos limita-se a citar duas ou três passagens das Escrituras, e consumatus est. Urge, portanto, que nos debrucemos sobre a Bíblia Sagrada, veículo da Palavra de Deus, com responsabilidade, racionalidade e honestidade, além de sincero desejo de mudança, a fim de descobrir a autêntica liberdade que há em Cristo Jesus.

DEFININDO OS TERMOS

“Homossexualidade” não é um termo antigo. Seu surgimento remonta ao século 19, período em que o espírito cientificista operante na Europa procurava palavras para definir tudo. A criação desses termos é atribuída ao escritor e jornalista austro-húngaro Karoly Marie Kertbeny, em 1869. Numa carta dirigida ao Ministério da Justiça alemão, com o fito de condenar um artigo do Código Penal contrário aos homossexuais, Kertbeny utiliza a palavra “homossexual” no lugar de “sodomita”, termo mais usado no período. Na língua portuguesa, sua primeira utilização data de 1899. Naturalmente, trata-se de um conceito novo cunhado para definir uma realidade antiga, tão remota quanto a espécie humana. É fato que a maioria dos seres humanos relaciona-se afetiva e sexualmente com pessoas do sexo oposto. Porém, há uma parcela menor, mas significativa, de homens e mulheres que se sentem afetiva e sexualmente atraídos por pessoas do mesmo sexo. A essas pessoas dá-se o nome de homossexuais.

“Homossexual” é um vocábulo híbrido, composto pela junção do grego homós (igual) e do latim sexus (sexo). Literalmente, homossexual quer dizer “sexo igual”. Embora o termo seja aplicado, inclusive nos dicionários, com o sentido de “indivíduo que pratica o ato sexual com pessoas do mesmo sexo”, essa não é uma boa definição. Isto porque um indivíduo pode ser homossexual sem jamais ter praticado um ato sexual, assim como alguém pode praticar o ato sexual com pessoa do mesmo sexo sem necessariamente ser homossexual. É indispensável fazer distinção entre ser homossexual e ter atitude homossexual. Há homens que se prostituem e que, apesar de copularem com outros homens, não o fazem por desejo ou prazer; outros são forçados a manter relações sexuais com pessoas de mesmo sexo; podemos citar também indivíduos de ambos os sexos que, quando confinados por algum tempo somente com pessoas do mesmo sexo (em prisões, internatos e outras instituições congêneres), acabam por praticar atos sexuais, mas, uma vez encerrado o período de reclusão, retomam relacionamentos exclusivamente com pessoas do sexo oposto. Nas três situações há pessoas com atitudes homossexuais (ou submetidas a uma atitude homossexual) que, no entanto, não são homossexuais.

HOMOSSEXUALIDADE OU HOMOSSEXUALISMO?

O termo homossexualidade passou a ser utilizado em lugar de homossexualismo por determinação da Organização Mundial da Saúde, visto que a terminação ismo, de homossexualismo, tem uma forte conotação de doença.

DEFINIÇÕES

Algumas palavras são muito utilizadas quando falamos sobre as pessoas homossexuais. As mais importantes são:

Gay: vocábulo inglês que significa “alegre, jovial”. Na gíria norte-americana refere-se ao homossexual masculino. Foi popularizado no mundo a partir da década de 1980 pelo cinema dos EUA. Em um contexto mais amplo, gay tanto pode significar homem homossexual quanto homossexual assumido, tanto masculino quanto feminino.

Lésbica: é a mulher homossexual. O termo refere-se à ilha grega de Lesbos, onde viveu Safo, uma das maiores poetisas da língua helênica na Antigüidade e uma das mais notórias mulheres homossexuais da História.

Travesti: indivíduo que aprecia utilizar roupas e acessórios usualmente atribuídos ao gênero oposto ao seu.

Transexual: indivíduo que possui o sexo psicológico diferente do sexo genital. Também são denominados (as) transgêneros.

QUEM É HOMOSSEXUAL?

Uma definição ampla e satisfatória de homossexualidade precisa considerar três fatores essenciais:

ORIENTAÇÃO SEXUAL

Trata-se do desejo, da atração sexual. É homossexual o indivíduo que deseja se relacionar afetiva e sexualmente com pessoa do mesmo sexo. Por sua vez, o heterossexual tem seu desejo sexual direcionado para o sexo oposto. Há também pessoas que são sexualmente atraídas por ambos os sexos, denominadas bissexuais. Não há estatísticas definitivas, mas as pesquisas feitas até o momento concluem que os homossexuais constituem cerca de 8% da população. Segundo Valter Forastieri, biólogo e mestre em filosofia e história da ciência pela UFBA, “em humanos, a orientação sexual é comportamental e cognitiva. Comportamental como nos animais: o simples fato de fazer sexo. Mas a sexualidade humana é também cognitiva: as pessoas têm fantasias, relacionam a imagem do parceiro com a auto-imagem, amam e mantém relações psíquicas tão complexas que nem elas mesmas entendem direito seus sentimentos em relação à pessoa desejada”. Logo, limitar a orientação sexual ao ato sexual é uma atitude claramente simplista e inconveniente.

IDENTIDADE SEXUAL

Diz respeito à relação entre o sexo genital e o sexo psicológico. Os travestis e transexuais masculinos são um exemplo de relação conflituosa: embora sejam indivíduos do sexo masculino, não se sentem homens. O que diferencia um travesti de um transexual é a aceitação da genitália. Enquanto o travesti não se sente incomodado com seu pênis, e costuma utilizá-lo como fonte de prazer, o transexual não consegue tolerar seu órgão sexual. Para ele, o pênis é como um câncer, uma estrutura anômala que precisa ser eliminada. São os indivíduos comprovadamente transexuais que recebem autorização para realizar a cirurgia de mudança de sexo, podendo até alterar suas carteiras de identidade civil para adotar pré-nomes femininos. Embora em menor número, há também mulheres transexuais.

É a ignorância acerca da identidade sexual dos homossexuais que alimenta um dos mais tolos preconceitos socialmente difundidos: o de que todo gay é efeminado e de que toda lésbica é masculinizada. A maioria dos gays são homens “comuns”, que se sentem homens e que nem de longe desejam ser mulheres. O mesmo se pode dizer das lésbicas: são mulheres que se sentem e apreciam ser mulheres. Isto é, para a maior parte dos homossexuais a questão da identidade sexual é pacífica, havendo harmonia entre o sexo psicológico e o genital.

É indispensável lembrar que a transexualidade, ao contrário da homossexualidade, é uma doença, e como tal recebe tratamento, que pode ser a alteração cirúrgica da genitália. É irracional a oposição que esse tratamento recebe de determinados setores da sociedade. Todos concordam que se uma criança nasce doente, deve ser submetida a todos os tratamentos necessários para recuperar sua integridade. Mas quando o assunto envolve sexualidade, a abordagem objetiva dá lugar a apaixonadas discussões de ordem ética e moral. Isso denuncia o quanto a sexualidade humana é envolta em amarras morais, destituídas de quaisquer outros fundamentos que não sejam as heranças moralistas da Idade Média e do puritanismo.

PAPEL SOCIAL DO SEXOS

Todo grupo social apresenta regras claras sobre o que se espera de seus membros. Os critérios adotados para a definição dessas funções, responsabilidades e expectativas são arbitrários, e geralmente se baseiam na diferenciação social: dominadores/dominados, superiores/ inferiores, homens/mulheres. A cada classe cabe um lugar na sociedade e de cada uma delas se espera um determinado comportamento. No que diz respeito a homens e mulheres, há um modus vivendi esperado: o homem é másculo, a mulher é delicada; o homem é viril, a mulher é submissa; o homem é ativo, a mulher é passiva; o homem é forte, a mulher é o “sexo frágil”; o homem manda, a mulher obedece. Tudo o que foge a esse padrão é uma anomalia, um comportamento antinatural que deve ser combatido. Fugir ao padrão é desafiar o status quo, é ameaçar a ordem estabelecida. Por essa razão, a idéia de um homem amando outro homem causa tanto repúdio: quem vai mandar em quem? Quem será o passivo e quem será o ativo? Quem será o “homem” e quem será a “mulher”? O mesmo se pode dizer da relação amorosa entre duas mulheres. A possibilidade de um relacionamento de fato baseado na igualdade plena é tida como absurda. E por que é absurda? Qual é o fundamento dessa hipótese? Nenhum, a não ser a força das convenções sociais. É exatamente a força dessas convenções, profundamente arraigadas no pensamento social, que nos permite compreender alguns dos nomes pejorativos e ofensivos dados aos homossexuais. No caso dos gays, esses nomes visam menosprezar sua condição de homens, e no das lésbicas, denunciar uma presumida ausência de feminilidade. É óbvio que os xingamentos a que são submetidos os homossexuais não são fruto do acaso; antes, podem ser compreendidos através da observação do meio social que os produz e justifica. São sintomas de uma realidade social injusta, preconceituosa, discriminatória e incapaz de compreender e conviver com a diferença.

Portanto, quem é o homossexual? Antes de tudo, é o indivíduo que deseja se relacionar com pessoas do mesmo sexo, que se sente física, psicológica e espiritualmente realizado com esses relacionamentos. O foco não está no ato sexual em si, posto que este seja tão-somente conseqüência; a verdadeira definição da homossexualidade se encontra no desejo, na orientação sexual.

HOMOSSEXUALIDADE É DOENÇA?

A idéia de que a homossexualidade fosse uma doença e, portanto, passível de cura, surgiu na Europa em fins do século 18. Desde então, inúmeros tratamentos foram propostos para curar os homossexuais. Na Inglaterra, em 1895, o escritor Oscar Wilde foi condenado a ficar dois anos presos por seus relacionamentos “antinaturais”. Em 1898, o Instituto Kansas de Doenças Mentais castrou 48 meninos. Certos pacientes buscavam voluntariamente a cirurgia de extração de testículos, acreditando que isso curaria seu desejo sexual. No fim do século 19, tomou força a teoria de que a homossexualidade era uma doença mental, e devia ser tratada. Em 1899, certo Dr. John D. Quakembos tratava com hipnose não só a homossexualidade como a ninfomania e a masturbação. Em 1937, em Atlanta, médicos prometiam que seus pacientes desistiriam do “vício” depois de dez sessões de eletrochoques. Nos anos 1950, na Tchecoslováquia, pacientes tomavam uma droga indutora de vômito e eram obrigados a ver cenas de homens nus. Depois, recebiam uma injeção de testosterona e eram expostos a imagens de mulheres nuas. A lobotomia foi usada como tratamento no início do século 20, até que, em 1959, um relatório do Hospital Estadual Pilgrim, em Nova York, avaliou 100 casos e concluiu que os pacientes continuavam homossexuais (citação de matéria da revista Superinteressante). É desnecessário dizer que todos esses tratamentos foram ineficientes.

O reconhecimento de que a homossexualidade não é doença teve seu ponto de partida na proposta da diretoria Associação Americana de Psiquiatria (American Psychiatric Association, APA) de retirar a palavra da lista de transtornos mentais ou emocionais, em 15 de dezembro de 1973. Treze dos quinze diretores da APA votam favoravelmente. A decisão foi contestada por muitos psiquiatras, que pediram sua anulação. A APA convocou então um referendo para abril de 1974, quando foi ratificada por 58% dos votos. Tal decisão foi seguida por todas as entidades de psicologia e psiquiatria do mundo (as mais tardias foram a Associação Japonesa, em 1995, e a Chinesa, em 2001). No Brasil, O Conselho Federal de Psicologia seguiu a tendência internacional.

Em 17 de maio de 1991, a Organização Mundial da Saúde retirou a homossexualidade do registro de doenças (nessa mesma ocasião, a OMS recomendou a substituição do termo homossexualismo, que denota doença, por homossexualidade), no que foi seguida pelos Conselhos de Medicina do Brasil (é relevante observar que já em 1985 o Conselho Federal de Medicina do Brasil passou a desconsiderar o artigo 302.0 da Classificação Internacional de Doenças, que classificava “homossexualismo” como doença; a homossexualidade foi incluída no artigo 206.9, considerada dentro da categoria de “outras circunstâncias psicossociais”; isto significa que, se o homossexual apresenta algum problema, não é por ser homossexual, mas por causa da forma como é tratado pela sociedade).

Portanto, qualquer afirmação de que a homossexualidade seja doença não possui nenhum respaldo científico. Ela é tão-somente uma manifestação da sexualidade humana, do mesmo modo que a heterossexualidade.

OPÇÃO OU ORIENTAÇÃO SEXUAL?

Se as causas da homossexualidade não são conhecidas pela ciência, numa coisa os cientistas e pesquisadores são unânimes: a homossexualidade não é fruto de uma escolha pessoal do indivíduo. É exatamente por isso que não se fala em opção sexual, e sim orientação sexual. Opção implica em escolha, isto é, na possibilidade plena de estar diante de duas ou mais opções e se decidir por uma delas. Não é isso o que acontece aos homossexuais. Não há um momento na vida de um homem em que ele, voluntariamente, opte por desejar homens e não mulheres. Da mesma forma a mulher. Eles e elas não “viram” gays ou lésbicas; eles são gays e lésbicas, e isso faz toda a diferença. A opção que um homossexual pode adotar é a de não aceitar sua orientação sexual, e viver em permanente conflito com sua própria personalidade e essência, ou aceitar-se enquanto homossexual e buscar vivenciar sua condição da melhor maneira possível. Nas palavras de Sérgio Gwecman, articulista da revista Superinteressante:

“O problema é que, segundo a ciência, não somos capazes de escolher e conduzir nossa orientação sexual. Como diz uma piada comum entre gays, homossexualidade não é escolha, mas falta de escolha. Pesquisas sobre o tema apontam para uma mistura de fatores biológicos, psicológicos e socioculturais nos motivos que fazem alguém ser gay. Mas todas são unânimes em afirmar que ser gay não é ideologia, crença ou frescura de meninos malcriados. Independentemente do país, cultura e religião, as estatísticas se repetem mostrando que uma parcela pouco abaixo de 10% da população prefere parceiros de mesmo sexo. Há relatos de práticas homossexuais no passado de culturas tão diferentes como os gregos ou comunidades isoladas de Papua Nova Guiné. Isso faz dos relacionamentos gays um fato tão antigo quanto a civilização humana. E nos obriga a reconhecê-los como parte do convívio em sociedade”.

HOMOSSEXUALIDADE E MORAL

Para chegarmos a uma conclusão sobre a relação da homossexualidade com a moral, precisamos ter uma noção clara de qual é o conceito de “Moral”. Diz o dicionário: Moral – Conjunto de regras de conduta ou hábitos considerados válidos quer de modo absoluto, quer para grupo ou pessoa determinada. Observe bem: a Moral trata de conduta e de hábitos. O que é conduta? É procedimento, comportamento. E o que é hábito? É a disposição adquirida pela repetição freqüente de um ato. Logo, a Moral trata de elementos da ordem do fazer: daquilo que as pessoas fazem (ação) ou deixam de fazer (omissão). Mas, e a homossexualidade? Se a pessoa escolhesse ser homossexual, aí nós poderíamos até considerar que ela agiu mal (escolhendo ser gay, por exemplo). Mas o caso é que ninguém escolhe ser homossexual. A homossexualidade diz respeito ao ser, está ligada à própria essência da pessoa. Se eu afirmo que ser homossexual é imoral, então eu também posso afirmar que é imoral ser negro, ou índio, ou mulher. Mas, como todos sabem, o ser não está submetido a normas morais. Eu sou e pronto, ou não sou, e ponto final! As questões do Ser são campo de estudo de um outro ramo do conhecimento humano chamado ontologia, nunca da Moral.

Tudo bem, pode-se dizer, ser homossexual não é imoral. Mas, e praticar atos homossexuais? A resposta a essa questão não é simples, pois deve considerar um sem-número de fatores. Por exemplo: o que se entende por “atos homossexuais”? Um beijo entre homens seria ato homossexual? Ou só o ato sexual propriamente dito? Se duas pessoas de mesmo sexo se amam, e decidem viver juntas, mas não transam, isso é ato homossexual? Ou seria homofilia (amizade muito intensa entre pessoas de mesmo sexo)? Vamos, porém, considerar a questão mais gritante: é imoral duas pessoas de mesmo sexo transarem? Vamos dividir a resposta por partes:

1) Se uma pessoa é homossexual, seu desejo sexual será naturalmente direcionado para uma pessoa do mesmo sexo. Logo, ao praticar ato sexual com uma pessoa de mesmo sexo, o homossexual estará seguindo sua natural inclinação, sua orientação sexual, que é parte de sua essência. Se ele faz alguma coisa que está de acordo com sua natureza, isso não constitui imoralidade.

2) Uma das bases para a defesa da imoralidade de um ato sexual homossexual é que ele não resulta em procriação. Afirmar isso significa dizer que o único propósito do sexo é a procriação, o que nenhum moralista contemporâneo ousa afirmar. As ciências naturais e da saúde comprovam que mesmo entre os irracionais o sexo tem múltiplas finalidades. Entre determinadas espécies de macacos, por exemplo, os biólogos já detectaram 22 funções para a atividade sexual entre machos. E o fato de o ato sexual entre pessoas de mesmo sexo não cumprir uma das funções do sexo (a procriação) não significa que ele não cumpra as demais. É de conhecimento geral que um ato sexual homossexual é tão satisfatório quanto um hétero para fornecer prazer, comunhão, afeto, carinho, satisfação psicológica, intimidade etc. Além disso, se a única função do sexo fosse a procriação, e a ausência da possibilidade de isso ocorrer fosse determinante para tornar imoral o sexo entre homossexuais, deveríamos considerar imoral também o ato sexual de um casal hétero onde um dos dois, ou ambos, seja estéril.

3) Dentro de um prisma estritamente cristão, a regra áurea da Moral é o amor. Se considerarmos um ato sexual entre duas pessoas adultas, livres, dotadas de capacidade intelectual, física e emocional para tanto, e unidas por amor, onde estaria a imoralidade?

HOMOSSEXUALIDADE É PECADO?

São duas as razões pelas quais podemos afirmar que a classificação de pecado não cabe à homossexualidade. A primeira é a repetição do argumento utilizado nas duas questões antecedentes: se o indivíduo não escolhe ser homossexual, ou seja, se a sua orientação sexual não é resultado de uma escolha voluntária, então homossexualidade não pode ser pecado, entendido como “uma ação ou omissão reprovável diante de Deus, fruto de um ato livre da vontade humana”.

A segunda razão está no desenvolvimento teológico das Escrituras Cristãs acerca do pecado. A definição de pecado segundo a doutrina evangélica e apostólica se baseia no ensino de Jesus Cristo sobre o papel supremo do Amor.

Consideremos alguns textos bíblicos sobre o tema, a começar por 1Jo 3.4: “Todo aquele que pratica o pecado também transgride a lei, porque o pecado é a transgressão da lei”. Essa é mais importante definição positiva e direta de pecado encontrada na Bíblia Sagrada. No texto grego, onde se traduz “transgressão da lei”, São João utiliza o termo anomia, que literalmente significa “não lei”, i.e., negação da lei, ilegalidade. Pecar é transgredir a lei, agir de tal forma que a lei seja desrespeitada. Entender isso não é difícil; a verdadeira dificuldade se encontra no entendimento do que é a lei.

Em primeiro lugar, é fato inegociável que não se trata da Lei Mosaica e dos demais mandamentos das Escrituras Hebraicas. Quando Cristo consumou sua obra de salvação e instituiu a Nova Aliança, a Antiga Aliança e seu código de ordenanças foram anulados. Como está em Hb 7.12: “Pois, quando se muda o sacerdócio, necessariamente há também mudança de lei”. Ver Hb 8.7-13.

E diz São Paulo em Rm 10.4: “Porque o fim da lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê”. Sobre a lei da Antiga aliança o que se afirma é que:

1) Não pode justificar ninguém (Rm 3.20);

2) Quem vive sob ela não é herdeiro das promessas de Deus, pois “a lei suscita a ira” (Rm 4.14,15);

3) Não tem domínio sobre a Igreja (Rm 6.14; Gl 5.18);

4) É necessário “morrer” para ela a fim de viver para Deus (Gl 2.19);

5) Não procede da fé (Gl 3.12);

6) Teve função e poder temporários (Gl 3.23-25);

7) Nada levou à perfeição (Hb 7.19).

Se a lei a que se refere São João, cuja quebra é pecado, não é a lei da Antiga Aliança, expressa nos mandamentos das Escrituras Hebraicas, o que ela é? Que lei ele tinha em mente? A resposta está na própria carta do apóstolo. Consideremos as seguintes citações:

“Ora, sabemos que o temos conhecido por isto: se guardamos os seus manda-mentos. Aquele que diz: Eu o conheço, e não guarda os seus mandamentos é men-tiroso, e nele não está a verdade. Amados, não vos escrevo mandamento novo, senão mandamento antigo, o qual, desde o princípio, tivestes. Esse mandamento antigo é a palavra que ouvistes. Todavia, vos escrevo novo mandamento, aquilo que é verdadeiro nele e em vós, porque as trevas se vão dissipando, e a verdadeira luz já brilha. Aquele que diz estar na luz e odeia a seu irmão, até agora, está nas trevas. Aquele que ama a seu irmão permanece na luz, e nele não há nenhum tropeço. Aquele, porém, que odeia seu irmão está nas trevas, e anda nas trevas, e não sabe para onde vai, porque as trevas lhe cegaram os olhos” (1Jo 2.3,4,7-11).

“Porque a mensagem que ouvistes desde o princípio é esta: que nos amemos uns aos outros” (1Jo 3.11).

“Filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas de fato e de verdade. E nisto conheceremos que somos da verdade, bem como, perante ele, tranqüilizare-mos o nosso coração” (1Jo 3.18,19).

“Ora, o seu mandamento é este: que creiamos em o nome de seu Filho, Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o mandamento que nos ordenou” (1Jo 3.23).

“E nós conhecemos e cremos no amor que Deus tem por nós. Deus é amor, e aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus, nele” (1Jo 4,16).

A consideração dessas palavras de São João não deixa espaço para a dúvida: a lei a que o apóstolo se reporta é a lei do Amor. A base desse “novo mandamento” é o próprio Senhor Jesus Cristo. Quando indagado sobre o maior mandamento, Jesus respondeu: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas” (Mt 22.37-40). Segundo o Filho de Deus, a verdadeira identidade de seus discípulos é o amor ao próximo (Jo 13.34,35). Jesus afirmou claramente: “O meu mandamento é este: que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei” (Jo 15.12).

Fazendo eco às palavras de Jesus, São Paulo escreveu: “A ninguém fiqueis devendo coisa alguma, exceto o amor com que vos ameis uns aos outros; pois quem ama o próximo tem cumprido a lei. Pois isto: Não adulterarás, não matarás, não furtarás, não cobiçarás, e, se há qualquer outro mandamento, tudo nesta palavra se resume: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. O amor não pratica o mal contra o próximo; de sorte que o cumprimento da lei é o amor” (Rm 13.8-10). E aos gálatas: “Porque toda a lei se cumpre em um só preceito: Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Gl 5.14).

Sendo o Amor a lei suprema de Cristo, a aplicação prática desse mandamento está em Mt 7.12: “Tudo quanto, pois, quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles; porque esta é a lei e os profetas”.

O que Deus exige de seus filhos é que amem a todas as pessoas e que vivam de acordo com o amor, jamais praticando o que possa prejudicar o próximo. Quando o indivíduo faz a alguém o que é mal, o que não gostaria que se fizesse a ele mesmo, esse tal cometeu pecado.

E qual é a conseqüência dessa postura bíblica para a homossexualidade? Ora, se o relacionamento homossexual é a união de duas pessoas que se amam, que desejam o melhor uma para a outra, que seriam capazes de fazer sacrifícios uma pela outra se necessário fosse, onde está o pecado? Onde está o mal? A orientação homossexual e o exercício da homossexualidade não ferem a lei do Amor, que é a única e autêntica lei de Deus; logo, homossexualidade não constitui pecado.

AS ESCRITURAS HEBRAICAS

Antes de iniciarmos qualquer análise de textos das Escrituras Hebraicas acerca da homossexualidade, é indispensável que salientemos duas verdades elementares: (1) as determinações morais e cerimoniais da Antiga Aliança não são normativas para a Igreja de Cristo, como já foi demonstrado anteriormente; e (2) quando falamos em homossexualidade nos tempos da Antiga Aliança não devemos perder de vista o fato de que a realidade sociocultural da época era radicalmente diferente do nosso próprio tempo, o que nos leva à obrigação de contextualizar a mensagem bíblica, i.e., examiná-la à luz de seu contexto sociocultural.

ADÃO E EVA

A visão das Escrituras Hebraicas sobre as relações homossexuais está inserida dentro da postura moral hebraica quanto à sexualidade humana, cujo fundamento é o relato da Criação da humanidade. Diz o texto de Gn 1.26-28:

Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela terra. Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. E Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra”.

Duas informações principais são claras no texto: (1) Deus fez a humanidade como homem e mulher e (2) os fez com o propósito de povoar a Terra. A seqüência de ordens divinas é: “sede fecundos”, “multiplicai-vos”, “enchei a terra”, “sujeitai-a”. Um dos argumentos mais simplistas usados para classificar a homossexualidade como um agravo à ordem natural instituída por Deus é o fato de que ele criou a humanidade como macho e fêmea; não houve dois homens, nem duas mulheres. Ora, Adão e Eva foram os primeiros seres humanos, dos quais procede toda a raça humana, conforme atestam Nosso Senhor Jesus (Mt 19.4; Mc 10.6) e São Paulo (At 17.26). Como a reprodução humana é exclusivamente sexuada (dá-se pela união de um gameta masculino e outro feminino), era impossível que dois homens ou duas mulheres dessem origem à humanidade. Naquele momento específico, para fins de reprodução, era imprescindível que houvesse um homem e uma mulher; não podia ser de outra forma. Entretanto, a partir do momento em que Adão e Eva geram descendentes, e estes se multiplicam, a homossexualidade torna-se uma possibilidade de relacionamento afetivo e sexual viável. E conforme atestam os historiadores, ainda na pré-história, antes da constituição de qualquer sistema religioso ou moral, a prática da homossexualidade já estava presente entre os seres humanos.

Entretanto, no interior da visão hebraica sobre a sexualidade não havia espaço para a prática do ato sexual a não ser para a reprodução (a visão do sexo desenvolvida nos livros de Eclesiastes e Cântico dos Cânticos, mais recente, é uma exceção. Aliás, um dos argumentos contrários à manutenção de Cântico dos Cânticos no cânon hebraico durante o Concílio de Jâmnia, realizado em 132, foi justamente o fato de que não há no livro a defesa do ato sexual exclusivamente para fins reprodutivos). Um ato sexual que não resultasse em fecundação era condenável, como se pode ver em Gn 38.6-10. Tão arraigado era tal posicionamento que a emissão de sêmen através da masturbação ou polução noturna (ejaculação durante o sono), bem como a ejaculação durante o ato sexual tornavam o homem impuro (Lv 15.16-18). O ato sexual não era bem visto, não era tido como uma atividade a ser desfrutada prazerosamente como comer, beber ou dormir. Se a cópula tornava um homem imundo, por que praticá-la a não ser pela necessidade da procriação? Tal é o questionamento básico da moral sexual hebraica. E se essa era a postura diante da relação homem-mulher, que dizer da relação homem-homem ou mulher-mulher, na qual a possibilidade de procriação é nula? Não nos surpreende, portanto, que a homossexualidade receba um olhar, em certa medida, reprovador.

SODOMA E GOMORRA


A primeira referência das Escrituras Hebraicas à homossexualidade está em Gn 19, capítulo que relata a história de Ló, sobrinho do patriarca Abraão, na Pentápolis, conjunto de cinco cidades cananéias que teriam existido no sul do mar Morto, no vale do rio Jordão: Sodoma, Gomorra, Admá, Zeboim e Zoar. As principais cidades eram Sodoma e Gomorra, que acabaram se tornando símbolos do apego ao pecado em desafio à santidade de Deus. Inclusive é do nome de Sodoma que vêm as palavras sodomia (cópula anal, e por extensão, homossexualidade masculina) e sodomita (aquele que pratica sexo anal, e por extensão homossexual masculino). Entretanto, segundo defende o historiador Alderi Souza de Matos, a associação do pecado de Sodoma com o pecado sexual não era conhecida dos tempos bíblicos; tal associação aparece pela primeira vez nos pseudo-epígrafos, no filósofo judeu Filo de Alexandria e em Flávio Josefo, historiador hebreu. Na tradição judaica anterior, o crime dos sodomitas era compreendido como falta de hospitalidade, um dever sagrado para o povo hebreu.

A HISTÓRIA DE SODOMA

A primeira referência bíblica importante a Sodoma aparece em Gn 13.10-13: “Levantou Ló os olhos e viu toda a campina do Jordão, que era toda bem regada (antes de haver o SENHOR destruído Sodoma e Gomorra), como o jardim do SENHOR, como a terra do Egito, como quem vai para Zoar. Então Ló escolheu para si toda a campina do Jordão e partiu para o Oriente; separaram-se um do outro. Habitou Abraão na terra de Canaã; e Ló, nas cidades da campina e ia armando suas tendas até Sodoma. Ora, os homens de Sodoma eram maus e grandes pecadores contra o SENHOR”. De acordo com esse relato do Gênesis, o patriarca Ló, sobrinho de Abraão, escolheu como habitação para si e seus rebanhos a campina do Jordão, onde havia várias cidades. Ele conseguiu ampliar seus negócios em todas essas cidades até chegar à principal, Sodoma. Ainda de acordo com o texto, o território ao sul do mar Morto, hoje desértico, era extremamente fértil e belo. Algum tempo depois de Ló ter passado a viver em Sodoma, houve guerra entre a Pentápolis e uma confederação de quatro reinos mesopotâmicos. Os reis da Mesopotâmia marcharam por todo o território cananeu, desde a região do Mar de Quinerete (que é o Mar da Galiléia), no extremo norte, até os reinos dos edomeus e amalequitas, no extremo sul. Em seguida, deram combate aos reis da Pentápolis e os derrotaram (Gn 14.1-11). Entre os prisioneiros de guerra feitos em Sodoma estavam Ló e sua família (v 12). Por isso, Abraão preparou um pequeno exército e atacou os reis invasores quando eles estavam quase fora dos limites da terra de Canaã; pegos de surpresa, os reis mesopotâmicos fugiram, e os moradores da Pentápolis, com seus rebanhos e riquezas, foram libertados (vv 13-17). As cidades conquistadas se refizeram do ataque e continuaram a viver na prática do mal, da mesma forma que antes. Tão grande se tornou a maldade dos habitantes dessas cidades que Deus mesmo veio para conferir o que realmente estava acontecendo. Acompanhado de dois anjos, o Senhor Javé anunciou a Abraão a sua intenção de destruir as cidades pecadoras. Comovido, Abraão rogou a Deus que retirasse a punição caso houvesse pelo menos dez justos em Sodoma, mas nem ao menos esse número havia lá (Gn 18.1-33). Os dois anjos de Deus foram a Sodoma, onde acharam Ló assentado à porta da cidade (Gn 19.1); esse fato revela a importância social que ele havia adquirido em Sodoma, pois os assentos localizados junto às portas eram reservados aos moradores mais nobres e ricos. Ao contrário das cidades modernas, os aglomerados urbanos antigos eram cercados de muros, para proteger os moradores, e a única maneira de entrar em uma cidade era passando pela porta. Por isso mesmo, toda movimentação social e comercial se concentrava ali. Seguindo o código de hospitalidade vigente naqueles tempos, Ló convidou os viajantes para passar a noite em sua casa, e insistiu tanto que eles aceitaram (vv 2,3). Naquela noite, porém, um grupo de homens atacou a casa de Ló, exigindo que ele entregasse os visitantes para que abusassem deles. Apavorado, Ló resistiu a tal loucura e ofereceu suas filhas no lugar dos dois anjos. Os homens de Sodoma não aceitaram a troca e tentaram atacar Ló, mas os anjos intervieram ferindo os bandidos com cegueira (vv 4-11). Depois disso, os mensageiros divinos se identificaram a Ló e ordenaram que ele saísse da cidade condenada com sua família. Como Ló demorasse a sair, eles o tomaram pela mão e o tiraram à força de Sodoma (vv 12-17). A pedido de Ló, Deus poupou da destruição a pequena cidade de Zoar, para onde ele fugiu. Quando ele entrava em Zoar Deus fez chover do céu fogo e enxofre, cobrindo de destruição a Pentápolis (vv 18-29). Esse foi o fim das cidades de Sodoma e Gomorra, que se tornaram símbolos do apego ao pecado e do justo juízo de Deus (Jd 7).

OS SODOMITAS REALMENTE TENTARAM VIOLENTAR OS ANJOS?

A relação de Sodoma e Gomorra com a homossexualidade se deve ao fato de que os sodomitas tentaram abusar dos anjos de Deus, julgando que fossem viajantes. Diz Gn 19.4,5: “Mas, antes que se deitassem, os homens daquela cidade cercaram a casa, os homens de Sodoma, tanto os moços quanto os velhos, sim, todo o povo de todos os lados; e chamaram por Ló e lhe disseram: ‘Onde estão os homens que, à noitinha, entraram em tua casa? Traze-os fora a nós para que abusemos deles’”. Com base nisso, a maior parte dos expositores bíblicos afirma que o pecado de Sodoma e Gomorra foi a homossexualidade, pois todos os sodomitas eram homossexuais e isso levou à destruição das cidades da Pentápolis (embora o crime contra os anjos, que envolve homossexualidade, só tenha ocorrido em Sodoma, e não nas outras três cidades destruídas, isso costuma ser convenientemente ignorado). É quase certo que a intenção dos sodomitas era mesmo abusar sexualmente dos anjos. A clareza do texto quanto a isso não permite muita discussão. Repetindo as palavras dos sodomitas em Gn 19.5, lemos: “Onde estão os homens que, à noitinha, entraram em tua casa? Traze-os fora a nós para que abusemos deles”. Literalmente, eles disseram a Ló: “traze-os fora a nós para que os conheçamos”. O verbo hebraico traduzido por “conhecer” é yadha, que aparece 995 vezes no hebraico bíblico, e tem o sentido de “conhecer, tomar conhecimento, saber”. Em 10 de suas ocorrências, ele significa “manter relações sexuais com”, que é o caso do texto de Gn 19.5. O que determina o sentido desse verbo é o contexto em que ele aparece. Por que podemos afirmar em Gn 19.5 ele significa “manter relações sexuais”? Por causa do versículo seguinte: quando Ló ouviu o pedido dos sodomitas, ofereceu suas filhas no lugar dos visitantes, para que os bandidos abusassem delas. É importante notar que ele diz: “tenho duas filhas, virgens, eu vo-las trarei”. Literalmente, suas palavras foram: “tenho duas filhas que não conheceram (yadha) homem”, ou seja, que nunca mantiveram relações sexuais com homem algum.

ESCLARECENDO OS FATOS

Em primeiro lugar, é preciso que tenhamos cuidado com os estilos literários das Escrituras Hebraicas, pois de maneira contrária cairemos em erros primários. Em Gn 19.4 lemos: “Mas, antes que se deitassem, os homens daquela cidade cercaram a casa, os homens de Sodoma, tanto os moços quanto os velhos, sim, todo o povo de todos os lados”. Uma leitura literal do texto nos permite entender que todos os sodomitas eram homossexuais. Não se abre espaço para dúvida: todos os moradores do sexo masculino de Sodoma participaram do ataque à casa de Ló.

Entretanto, podemos afirmar com toda certeza que nem todos os moradores de Sodoma eram homossexuais. São duas as razões: primeiramente, sabemos com certeza que o número de homossexuais em todas as sociedades humanas, tanto as repressoras quanto aquelas que são extremamente favoráveis à homossexualidade, permanece constante em uma faixa de aproximadamente 8% da população. Em hipótese alguma é cabível imaginar uma sociedade onde 100% (ou qualquer número sequer próximo disso) dos homens fossem homo ou bissexuais.

A segunda razão são as informações que se depreendem do próprio texto; basta que façamos alguns questionamentos bem simples: uma vez que o texto afirma que todos os homens de Sodoma, desde o mais moço até o mais velho, participaram do ato criminoso, é correto entender que bebês e crianças também estavam presentes? Os soldados responsáveis pela vigilância das muralhas também deixaram seus postos para participar do atentado? O rei de Sodoma também deixou o palácio para se unir à turba enlouquecida? E os genros de Ló? Não devemos nos esquecer que as filhas de Ló estavam prometidas em casamento a dois rapazes. Será que eles participaram do crime também? Caso tenham participado, porque os anjos se preocuparam em salvá-los da destruição? Lemos em Gn 19.12: “Então, disseram os homens a Ló: ‘Tens aqui alguém mais dos teus? Genro, e teus filhos, e tuas filhas, todos quantos tens na cidade, faze-os sair deste lugar’”. E o que Ló fez? Imediatamente tentou salvar seus genros, que nada sabiam dos acontecimentos da noite anterior, pois não estiveram lá: “Então, saiu Ló e falou a seus genros, aos que estavam para casar com suas filhas e disse: ‘Levantai-vos, saí deste lugar, porque o SENHOR há de destruir a cidade. Acharam, porém, que ele gracejava com eles” (Gn 19.14). Não é difícil perceber que nem todos os sodomitas estavam presentes no ataque à casa de Ló, e mais ainda, que nem todos eram homossexuais.

Resta ainda a observação do fato de que Ló ofereceu aos criminosos as suas filhas, na tentativa de poupar seus hóspedes. Se todos os sodomitas fossem homossexuais, Ló certamente saberia; e se esse era o caso, para que ele iria oferecer-lhes mulheres? O fato de ter exposto suas filhas aos criminosos de Sodoma indica que Ló sabia que eles poderiam se interessar por elas.

Se assim é, por que o autor de Gênesis afirma que todos os moradores de Sodoma tomaram parte no ataque? A resposta está no estilo literário adotado por ele, a hipérbole. O que é isso? Hipérbole é uma figura de linguagem que consiste no exagero proposital para destacar alguma coisa, no caso, o pecado dos sodomitas. Esse recurso literário aparece também, por exemplo, em 1Rs 10.27: “Fez o rei que, em Jerusalém, houvesse prata como pedras e cedros em abundância como os sicômoros que estão nas planícies”.

POR QUE A PENTÁPOLIS FOI DESTRUÍDA?

Quanto à destruição de Sodoma, podemos garantir que já estava determinada por Deus antes do incidente envolvendo os anjos. O crime dos sodomitas foi apenas a última gota do balde. Já em Gn 13.13, muito tempo antes da destruição das cidades e do crime cometido contra os anjos, o autor sagrado diz que eles eram “maus e grandes pecadores contra o SENHOR”. Se Deus houvesse destruído as cidades só por causa do ato louco dos homens que atacaram a casa de Ló, Ele estaria sendo muito injusto, pois os demais moradores, que estavam dormindo em suas casas na hora do crime, nada tiveram a ver com ele. Além disso, se o crime aconteceu em Sodoma, por que as outras cidades foram punidas também? O que elas tiveram a ver com a história?

Além disso, é necessário considerar o que Deus diz em Gn 18.20: “Disse mais o SENHOR: ‘Com efeito, o clamor de Sodoma e Gomorra tem-se multiplicado, e o seu pecado se tem agravado muito’”. Note bem: os moradores de Sodoma e Gomorra já vinham pecando há muito tempo, acumulando maldade sobre maldade, a tal ponto que Deus veio pessoalmente ver o caso. E o pecado não era apenas daqueles loucos que atacaram Ló. Lembre-se que não havia nem dez justos em toda a Pentápolis! Isso incluía mulheres também.

Outro ponto importante que devemos considerar é Gn 19.13: “Pois vamos destruir este lugar, porque o seu clamor se tem aumentado, chegando até à presença do SENHOR; e o SENHOR nos enviou a destruí-lo”. Essas palavras são dos anjos, que explicaram a Ló quem eles eram e o que estavam fazendo em Sodoma. Perceba como eles justificam sua missão: o SENHOR nos enviou a destruí-lo. Não disseram que haviam vindo para examinar, mas para destruir; ou seja, a sentença das cidades já estava determinada muito antes. Afinal, imaginar que o Senhor Javé, que é onisciente, precisaria descer à Terra para examinar alguma coisa é ignorar a grandeza do Senhor. Uma leitura atenta dos capítulos 18 e 19 nos permite entender qual foi a finalidade da visita angelical: (1) informar Abraão o propósito divino (Gn 18.17,18); e (2) tirar Ló de Sodoma antes da destruição, por amor a Abraão (Gn 19.29).

A HISTÓRIA DE SODOMA E MORALIDADE SEXUAL

A história de Sodoma não é nenhum compêndio de moral sexual. É interessante o fato de que toda a ênfase de boa parte dos expositores bíblicos recai no ato dos sodomitas, sem que sequer se mencione a absurda atitude de Ló. Afinal, ele ofereceu suas filhas para serem violentadas por uma turba enlouquecida. Depois da destruição de Sodoma, as filhas de Ló copularam com o pai e tiveram filhos dele (Gn 19.30-38). Tanto a atitude de Ló quanto o incesto de suas filhas não recebem nenhuma reprovação por parte do autor sagrado, nem costumam ser lembradas por aqueles que manipulam o texto bíblico para condenar a homossexualidade. Apesar de tudo, Ló é chamado por São Pedro de “justo Ló” (2Pe 2.7). Seguindo a lógica do hagiógrafo, ele ofereceu suas filhas para preservar seus hóspedes, segundo o código de hospitalidade da época. E as filhas dele demonstraram uma atitude altruísta, não permitindo que o pai ficasse sem descendência. Embora essas justificativas nos pareçam ridículas e improcedentes, não era assim que pensavam as pessoas naquele tempo. Defender a hospitalidade era uma questão de honra, acima da manutenção da própria integridade física e familiar. É isso que precisamos compreender: a intenção do autor do Gênesis não é analisar a correção moral das ações envolvendo a sexualidade dos personagens de sua história; antes, ele pretende denunciar a imensidão do pecado dos sodomitas.

O QUE FOI O PECADO DE SODOMA?

Como já adiantamos o pecado de Sodoma não é a homossexualidade, e sim a falta de hospitalidade, a arrogância e o desprezo por Deus, o que se depreende do texto de Gênesis. Afinal, o que é retratado pelo autor é uma tentativa de estupro homossexual! Entretanto, para darmos maior respaldo a essa afirmação, consideremos outros textos da Bíblia Sagrada. Primeiramente Ez 16.49,50:

Eis que esta foi a iniqüidade de Sodoma, tua irmã: soberba, fartura de pão e próspera tranqüilidade teve ela e suas filhas; mas nunca amparou o pobre e o necessitado. Foram arrogantes e fizeram abominações diante de mim; pelo que, vendo isto, as removi dali”.

Ao anunciar os julgamentos de Deus sobre a Jerusalém infiel, o profeta compara a cidade com Samaria e Sodoma, que se haviam tornado notórias pela impenitência e pelo castigo recebido, e afirma que o pecado de Sodoma era menor que o de Jerusalém. Em seguida ele descreve o pecado de Sodoma:

1) “Eis em que consistiu o crime de tua irmã Sodoma: soberba…” – a soberba, ou orgulho, foi o primeiro pecado dos sodomitas. Segundo os estudiosos, Sodoma, Gomorra, Admá, Zeboim e Zoar, as cinco cidades do Distrito do Jordão, formavam o maior aglomerado urbano de Canaã por volta de 2000 a.C. Em nenhuma outra parte do mundo antigo, com exceção das capitais mesopotâmias (Babilônia, Ur, Uruk, Lagash, Eridu, Acade, Calné), encontrava-se tal estrutura urbana. Essas cidades eram ricas e poderosas, influentes centros políticos e comerciais. Isso levou os habitantes da região a assumir uma postura presunçosa diante dos moradores de outras regiões, como se o fato de viverem nas cidades mais ricas de Canaã os tornasse superiores. A maior evidência desse comportamento soberbo dos sodomitas foi a forma como trataram os anjos, os quais acreditavam ser viajantes de outra cidade, desrespeitando o código de hospitalidade vigente em todo o mundo. É impressionante como a valorização da hospitalidade é um valor encontrado em todas as culturas da Antigüidade, desde os egípcios até os gregos e romanos. E o que é mais importante: a hospitalidade não era um valor observado apenas no âmbito social, mas também, e principalmente, no âmbito religioso. Conforme já foi dito, não respeitar o hóspede era desrespeitar a Divindade. O orgulho dos sodomitas era tão grande que já não se importavam com os homens nem com seus deuses.

2)fartura de pão e próspera tranqüilidade teve ela e suas filhas” – na tradução de Almeida, Edição Contemporânea, lemos: “Ora, esta foi a maldade de Sodoma, tua irmã: soberba, fartura de pão, e abundância de ociosidade teve ela e suas filhas”. Quando somamos as duas informações contidas nessa expressão do profeta, podemos compreender que os reis das cidades da Pentápolis exploravam os habitantes das cidades vizinhas, provavelmente em troca de proteção militar. Afinal, abundância de riquezas não combina com ociosidade. É o trabalho que gera riquezas. Se os sodomitas não trabalhavam e mesmo assim tinham “abundância de pão”, então alguém trabalhava para eles. E isso ocorria pela exploração do trabalho das cidades subordinadas. Isso também esclarece as palavras do Senhor Javé em Gn 18.20: “Disse mais o SENHOR: Com efeito, o clamor de Sodoma e Gomorra tem-se multiplicado, e o seu pecado se tem agravado muito”. Alguém havia gritado a Deus por causa dos crimes de Sodoma, e, considerando o contexto bíblico, a expressão “clamor a Javé” sempre aparece em situações de opressão aos pobres e indefesos.

3)mas nunca amparou o pobre e o necessitado” – além de orgulhosos, ociosos e exploradores, os sodomitas eram ainda caracterizados pela dureza com que tratavam os necessitados. Não se preocupavam com nada além da satisfação de seus prazeres e deleites. E é fato amplamente conhecido o quanto a esmola e a ajuda ao pobre são priorizados na doutrina da Antiga Aliança. Desprezar e insultar o pobre era o mesmo que atacar o seu Criador.

No versículo 50, o profeta Ezequiel repete o pecado de soberba das cidades da Pentápolis (“Foram arrogantes”) e afirma que elas “fizeram abominações”. O que são essas práticas abomináveis? Muitos imediatamente afirmam ser a homossexualidade; entretanto, seguindo a regra elementar da hermenêutica, devemos buscar o significado no contexto: em seu livro, mormente no capítulo 16, Ezequiel chama de abominação a rejeição do Senhor Javé pelos ídolos (vv 15-19), o sacrifício humano aos deuses demoníacos dos cananeus (vv 20,21), a edificação de templos e altares idolátricos (vv 23-25), e as relações políticas promíscuas com os assírios e egípcios, que envolviam adoração aos deuses desses povos como forma de selar pactos (vv 26-34). Em outras palavras, Ezequiel chama de abominação a prática da idolatria diabólica, que não passa de um ato de soberba humana, substituindo o Deus vivo pelas criações humanas. Não podemos ignorar o fato de que nenhuma menção à homossexualidade é feita, ou sequer sugerida.

Em Dt 32.32 Moisés compara Israel a Sodoma e Gomorra. Ele diz: “Porque a sua vinha é da vinha de Sodoma e dos campos de Gomorra; as suas uvas são uvas de veneno, seus cachos, amargos”. E qual é o pecado de Israel denunciado nesse texto? É a rejeição ao Deus verdadeiro e a idolatria, motivadas pelo orgulho e pela auto-suficiência gerada pela riqueza: “Mas, engordando-se o meu amado, deu coices; engordou-se, engrossou-se, ficou nédio e abandonou a Deus, que o fez, desprezou a Rocha da sua salvação. Com deuses estranhos o provocaram a zelos, com abominações o irritaram. Sacrifícios ofereceram aos demônios, não a Deus; a deuses que não conheceram, novos deuses que vieram há pouco, dos quais não se estremeceram seus pais. Olvidaste a Rocha que te gerou; e te esqueceste do Deus que te deu o ser” (Dt 32.15-18).

Outra comparação entre o povo hebreu e Sodoma é feita em Is 1.9,10: “Se o SENHOR dos Exércitos não nos tivesse deixado alguns sobreviventes, já nos teríamos tornado como Sodoma e semelhantes a Gomorra. Ouvi a palavra do SENHOR, vós, príncipes de Sodoma; prestai ouvidos à lei do nosso Deus, vós, povo de Gomorra”. E qual é o pecado denunciado? Novamente a idolatria e o abandono de Deus. Leiamos os versículos 2-4: “Ouvi, ó céus, e da ouvidos, ó terra, porque o SENHOR é quem fala: Criei filhos e os engrandeci, mas eles estão revoltados contra mim. O boi conhece o seu possuidor, e o jumento, o dono da sua manjedoura; mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende. Ai desta nação pecaminosa, povo carregado de iniqüidade, raça de malignos, filhos corruptores; abandonaram o SENHOR, blasfemaram do Santo de Israel, voltaram para trás”.

Outro aspecto do pecado de Sodoma é demonstrado em Is 3.9: “O aspecto do seu rosto testifica contra eles; e, como Sodoma, publicam o seu pecado e não o encobrem. Ai da sua alma! Porque fazem o mal a si mesmos”. O texto se refere à impenitência máxima, que chega ao ponto de não se envergonhar do pecado, mas de praticá-lo e publicá-lo como se fora coisa bela e aprovável. Além de não deixar seus próprios erros, o pecado de Sodoma leva ao cúmulo de incentivar o próximo a errar também: “Mas nos profetas de Jerusalém vejo coisa horrenda; cometem adultérios, andam com falsidade e fortalecem as mãos dos malfeitores, para que não se convertam cada um da sua maldade; todos eles se tornaram para mim como Sodoma, e os moradores de Jerusalém, como Gomorra” (Jr 23.14).

Quando ensinou aos seus discípulos sobre o seu retorno à Terra, Nosso Senhor comparou os últimos dias a dois exemplos tirados das Escrituras Hebraicas: os dias de Noé, que antecederam ao dilúvio (Lc 17.26,27) e os dias de Ló, antes da subversão de Sodoma (Lc 17.28,29). Ao falar sobre os sodomitas, disse Jesus: “O mesmo aconteceu nos dias de Ló: comiam, bebiam, compravam, vendiam, plantavam e edificavam; mas, no dia em que Ló saiu de Sodoma, choveu do céu fogo e enxofre e destruiu a todos”. Se o pecado que levou Sodoma à ruína tivesse sido a homossexualidade, é natural que Jesus tivesse mencionado isso. Mas ele não o fez. Pelo contrário, acusou os sodomitas de ter uma vida centrada nas riquezas e na despreocupação, e isso, segundo Jesus, foi que os levou à destruição.

Há ainda dois textos importantes sobre Sodoma e seu pecado. São eles 2Pe 2.6-8 e Jd 6,7. São Pedro escreveu:

E, reduzindo a cinzas as cidades de Sodoma e Gomorra, ordenou-as à ruína completa, tendo-as posto como exemplo a quantos venham a viver impiamente; e livrou o justo Ló, afligido pelo procedimento libertino daqueles homens insubordi-nados (porque este justo, pelo que via e ouvia quando habitava entre eles, atormen-tava a sua alma justa, cada dia, por causa das obras iníquas daqueles)”.

E São Judas:

E a anjos, os que não guardaram o seu estado original, mas abandonaram o seu próprio domicílio, ele tem guardado sob trevas, em algemas eternas, para o juízo do grande Dia; como Sodoma e Gomorra, e as cidades circunvizinhas, que, havendo-se entregado à prostituição como aqueles, seguindo após outra carne, são postos para exemplo do fogo eterno, sofrendo punição”.

Nas duas passagens o tema é o julgamento de Deus sobre os ímpios, exemplificado pela punição dos anjos (2Pe 2.4 e Jd 6), dos homens dos dias de Noé (2Pe 2.5) e das cidades de Sodoma e Gomorra (2Pe 2.6-8 e Jd 7). Tomemos por base a carta de São Judas. Em primeiro lugar, é importante entendermos quem são esses anjos “que não guardaram o seu estado original”. A maioria dos teólogos e intérpretes bíblicos identifica os anjos mencionados nas cartas de São Pedro e São Judas com as “estrelas caídas” de Ap 12.3,4,7, que são os anjos rebeldes das milícias de Satanás. Porém, quando os textos são comparados, percebe-se que há distinção entre eles. Vejamos as diferenças:

1) Segundo São Judas, a saída dos anjos pecadores do Céu foi voluntária. Ele escreve: “E a anjos, os que não guardaram o seu estado original, mas abandonaram o seu próprio domicílio”. Observe: eles abandonaram; não foram expulsos ou coisa parecida. Além disso, não há nenhuma menção a Satanás. Já os anjos rebeldes de Ap 12.3,4 foram retirados do Céu com violência; São João utiliza os verbos arrastar e lançar, i.e., jogar com força: “Viu-se, também, outro sinal no céu, e eis um dragão, grande, vermelho, com sete cabeças, dez chifres e, nas cabeças, sete diademas. A sua cauda arrastava a terça parte das estrelas do céu, as quais lançou para a terra”. É importante notarmos que as estrelas, símbolos dos anjos, foram arrastadas pela cauda do dragão e jogadas para fora do Céu. Isso harmoniza com a doutrina da queda dos anjos, segundo a qual inúmeros anjos de Deus foram envolvidos pela traição de Lúcifer e transformados em seres demoníacos.

2) Tanto em Judas quanto na segunda carta de São Pedro o destino dos anjos pecadores é o abismo, onde estão presos na escuridão até o dia do Juízo Final. São Pedro escreve: “Ora, se Deus não poupou anjos quando pecaram, antes, precipitando-os no inferno, os entregou a abismos de trevas, reservando-os para juízo” (2Pe 2.4). E assim disse São Judas: “E a anjos, os que não guardaram o seu estado original, mas abandonaram o seu próprio domicílio, ele tem guardado sob trevas, em algemas eternas, para o juízo do grande Dia” (Jd 6). Já em Apocalipse, o destino dos anjos rebeldes é a Terra: “A sua cauda arrastava a terça parte das estrelas do céu, as quais lançou para a terra” (Ap 12.4). Esses anjos lançados na Terra são os maus espíritos que hoje atormentam os homens e recebem o nome de demônios.

Fica claro que os anjos mencionados em Apocalipse pecaram na rebelião de Satanás e foram punidos com a expulsão para a Terra, onde agem para prejuízo da humanidade, até o dia em que serão condenados no Juízo Final. Mas aqueles mencionados por São Judas e São Pedro não estão soltos, não foram banidos para a Terra e sim para o Tártaro (palavra grega para “abismo, inferno”), até o dia do Julgamento. Ora, se eles não pecaram na rebelião de Satã, quando é que pecaram? E qual foi o seu pecado? A resposta está em Gn 6.1-4: “Quando os homens tinham começado a se multiplicar na superfície do solo e lhes nasceram filhas, os filhos de Deus viram que as filhas de homem eram belas e tomaram por mulheres as suas escolhidas. O SENHOR disse: ‘Meu Espírito não dirigirá sempre o homem, em razão dos seus erros; ele não passa de carne, e seus dias serão de cento e vinte anos’. Naqueles dias, os gigantes estavam na terra; e ainda estavam nela quando os filhos de Deus vieram ao encontro das filhas de homem e tiveram filhos delas. São os heróis de outrora, homens de renome” (Tradução Ecumênica da Bíblia, TEB). Embora a maior parte dos expositores bíblicos da atualidade afirme que os “filhos de Deus” mencionados aqui não são anjos, as citações das Escrituras Hebraicas que tratam do tema apontam com clareza para os seres angelicais (ver Jó 1.6; 2.1; 38.6,7; Sl 29.1; 82.1; 89.6,7). Esses anjos, sem a permissão divina, uniram-se a mulheres mortais (provavelmente se materializaram em corpos físicos), tiveram filhos com elas, e isso acabou precipitando o envio do dilúvio. O seu erro foi unir-se a seres de natureza diferente, i.e., à humanidade.

A idéia de que o pecado dos anjos foi a união sexual com mulheres mortais é defendida pelo próprio texto de Judas. É indispensável lembrarmos que a carta de São Judas é o livro das Escrituras Cristãs que mais menciona escritos apócrifos; são três os livros utilizados por ele: Livro de Enoque (aparece nos vv 6,7, que citam Enoque 12.4 e 10.6, e nos vv 14,15, que citam Enoque 1.9), Testamento dos Doze Patriarcas (sobre o qual se baseiam também os vv 6,7) e Assunção de Moisés (citado no v 9). Tanto no Livro de Enoque quanto no Testamento dos Doze Patriarcas, o pecado dos anjos é apontado como união sexual com mortais e é relacionado ao erro de Sodoma. O versículo 7 diz que Sodoma e as demais cidades pecaram de modo semelhante aos anjos, entregando-se à prostituição e correndo atrás de seres de outra natureza. A carta de São Judas é o único texto bíblico que explicitamente liga o pecado de Sodoma à sexualidade, mas, de forma inequívoca, não há nenhuma referência à homossexualidade. Onde a tradução de Almeida traz “seguindo após outra carne” e a TEB traduz “tinham corrido atrás dos seres de outra natureza”, o grego utiliza a expressão “sarx héteron”, literalmente “uma carne diferente”. Porém, ao contrário de soma, palavra grega que tem o sentido básico de “carne física, corpo físico”, sarx tem principalmente o significado de natureza humana, daquilo que é próprio de um ser humano. Sarx héteron jamais poderia ser utilizado para sugerir que a união sexual de dois homens seria “ir após outra carne”, visto que essa expressão não serve para fazer distinção entre sexo masculino e feminino, ou coisa parecida; dois homens sempre serão sarx homós, i.e., seres da mesma natureza, que é a natureza humana. O pecado dos sodomitas é semelhante ao dos anjos porque da mesma forma que estes se uniram a mulheres mortais (seres de natureza diferente da deles próprios), aqueles tentaram abusar de anjos (“seres de outra natureza”). Logo, no único texto que liga o erro de Sodoma ao pecado sexual, não há nenhum argumento contrário à homossexualidade. Donde se conclui que uma das maiores injustiças teológicas e históricas de que se tem notícia provém da ânsia de expositores bíblicos equivocados em provar seu ponto de vista, os quais acabam por emprestar à Bíblia uma mensagem deturpada e falsa.

A LEI MOSAICA E OUTRAS CITAÇÕES

Nos cinco primeiros livros das Escrituras Hebraicas atribuídos ao profeta Moisés há três menções à homossexualidade. São elas Lv 18.22, 20.13 e Dt 23.17,18. O caso específico de Deuteronômio não se refere à homossexualidade em sentido lato, mas à prostituição religiosa praticada em muitos cultos antigos, como a adoração de Baal e Astartéia, deuses cananeus.

A PROSTITUIÇÃO RELIGIOSA

Diz Dt 23.17,18: “Das filhas de Israel não haverá quem se prostitua no serviço do templo, nem dos filhos de Israel haverá quem o faça. Não trarás salário de prostituição nem preço de sodomita à Casa do Senhor, teu Deus, por qualquer voto; porque uma e outra coisa são igualmente abomináveis ao Senhor, teu Deus”.

Vejamos esse texto em outras versões:

Não haverá rameira dentre as filhas de Israel; nem haverá sodomita dentre os filhos de Israel. Não trarás salário de rameira nem preço de cão à casa do Senhor, teu Deus, por qualquer voto; porque ambos estes são igualmente abominação ao Senhor, teu Deus” (Almeida Revista e Corrigida, 1995).

Não haverá prostituta dentre as filhas de Israel; nem haverá sodomita dentre os filhos de Israel. Não trarás o salário da prostituta nem preço de um sodomita à casa do Senhor teu Deus por qualquer voto; porque ambos são igualmente abominação ao Senhor teu Deus” (Almeida Corrigida Fiel).

Não haverá, dentre os filhos de Israel, nem homem nem mulher que se entregue à prostituição no serviço do templo. Não trarás salário de prostituição, nem de homem nem de mulher, à casa do Senhor teu Deus em pagamento de algum voto, porque a ambos o Senhor teu Deus abomina” (Edição Contemporânea de Almeida).

Nenhum israelita, homem ou mulher, poderá tornar-se prostituto cultual. Não tragam ao santuário do Senhor, o seu Deus, os ganhos de uma prostituta ou de um prostituto, a fim de pagar algum voto, pois o Senhor, o seu Deus, por ambos tem repugnância” (Nova Versão Internacional).

Não haverá prostituta sagrada entre as israelitas, nem prostituto sagrado entre os israelitas. Não trarás à casa de Iahweh teu Deus o salário de uma prostituta, nem o pagamento de um “cão” por algum voto, porque ambos são abomináveis a Iahweh teu Deus” (Bíblia de Jerusalém).

Não haverá prostituta sagrada entre as filhas de Israel; não haverá prostituto sagrado entre os filhos de Israel. Nunca levarás à casa do SENHOR, teu Deus, para uma oferenda votiva, o ganho de uma prostituta ou o salário de um ‘cão’; tanto um como o outro são uma abominação para o SENHOR, teu Deus” (TEB).

O termo traduzido por “sodomita” ou “prostituto sagrado” é kadesh no hebraico, que as versões mais antigas interpretavam como “sodomita”, significando homossexual masculino. Inclusive algumas versões, mesmo algumas mais modernas, traziam de fato o termo “homossexual”, em total desrespeito ao contexto histórico, cultural e textual. Porém, estudos mais recentes no campo da antropologia religiosa e da arqueologia (especialmente a descoberta de documentos encontrados nas escavações da cidade cananéia de Ugarit, em 1928) permitiram aos pesquisadores compreender que a palavra kadeshah era sinônima de hierodulia, isto é, prostituição religiosa, e kadesh era o indivíduo, homem ou mulher, que se prostituía nos templos. Ao invés de “sodomita”, ou pior ainda, “homossexual”, kadesh deveria ser traduzido por “prostituto sagrado” ou “prostituto do templo”, como passou a ser feito nas traduções e versões mais recentes. Esses prostitutos eram homens que copulavam tanto com homens quanto com mulheres (exceto quando eram castrados e, portanto, só podiam se relacionar sexualmente com homens) como forma de adoração a seus deuses. A proibição registrada no Deuteronômio não tem absolutamente nenhuma relação com o relacionamento de duas pessoas comprometidas entre si pelo amor, mas com a prostituição religiosa. É essa mesma prostituição religiosa que aparece em textos como 1Rs 14.24, 22.47 e 2Rs 23.7:

Havia também na terra prostitutos-cultuais (kadesh); fizeram segundo todas as coisas abomináveis das nações que o SENHOR expulsara de diante dos filhos de Israel”.

Também exterminou da terra os restantes dos prostitutos-cultuais (kadesh) que ficaram dos dias de Asa, seu pai”.

Também derribou as casas da prostituição-cultual (kadeshah) que estavam na casa do SENHOR, onde as mulheres teciam tendas para o poste-ídolo (Asherá)”.

HOMOSSEXUALIDADE NAS RELIGIÕES PAGÃS

Em Lv 18.22 está escrito: “Com homem não te deitarás, como se fosse mulher; é abominação”. Em Lv 20.13: “Se também um homem se deitar com outro homem, como se fosse mulher, ambos praticaram coisa abominável; serão mortos, o seu sangue cairá sobre eles”.

Para que compreendamos esses textos, é indispensável a correta interpretação do contexto em que estão inseridos. No início do capítulo 18, vv. 1-4, lemos: “Disse mais o SENHOR a Moisés: Fala aos filhos de Israel e dize-lhes: Eu sou o SENHOR, vosso Deus. Não fareis segundo as obras da terra do Egito, em que habitastes, nem fareis segundo as obras da terra de Canaã, para a qual vos levo, nem andareis nos seus estatutos. Fareis segundo os meus juízos e os meus estatutos guardareis, para andardes neles. Eu sou o SENHOR, vosso Deus”. Fica aqui delimitado o alcance da mensagem contida nos versículos que se seguem: o objetivo das proibições registradas é preservar o povo israelita das práticas reprováveis dos egípcios e dos povos cananeus, a fim que fossem santos para Javé. Diz o versículo 24: “Com nenhuma destas coisas vos contaminareis, porque com todas estas coisas se contaminaram as nações que eu lanço de diante de vós”.

Quais são essas práticas abomináveis? São elas incesto (vv. 6-16); casamento polígamo com uma mulher e sua filha, ou com duas irmãs (vv.17,18); ato sexual com uma mulher menstruada (v. 19); adultério (v. 20); sacrifício humano ao deus Moloque (v. 21); “deitar-se com homem como se fosse mulher” (v. 22); e relação sexual com animais (v. 23). A proibição de um homem copular com outro é repetida em Lv 20.13, onde se institui a pena de morte para quem o fizesse.

Considerando que, semelhantemente às demais “abominações” descritas no capítulo 18, o “deitar-se com outro homem como se fosse mulher” é discriminado pelo texto bíblico como um costume cananeu, e levando-se em conta que a prática da hierodulia, ou prostituição sagrada homossexual, era a maneira de os cananeus servirem seu deus Baal e as deusas Astartéia e Asherá, é lícito crermos que esta é a forma de um homem dormir com outro que o autor sagrado condena.

Para reforçar essa opinião, temos duas evidências. A primeira é a ausência de menção à homossexualidade feminina. Uma interpretação literal do texto de Levítico isenta a união sexual de duas mulheres de qualquer culpa, pois não há proibição alguma. Ou isso acontece porque a homossexualidade feminina não é pecaminosa, ao contrário da masculina, ou por que a forma de relacionamento homossexual condenada é a prostituição religiosa dos cananeus. Se a segunda opção for a correta, o texto fica livre de qualquer contradição, pois na hierodulia cananéia, homens praticavam sexo tanto com homens quanto com mulheres, mas as mulheres só copulavam com homens ou com animais (ver o versículo 23). Não havia homossexualidade feminina nas práticas religiosas dos cananeus. Caso descartemos essa hipótese, teremos de admitir que, diante da legislação mosaica, dois homens que mantivessem relações sexuais estariam quebrando a lei, mas se duas mulheres o fizessem, não haveria problema.

A segunda evidência é o fato de haver, ao longo da narrativa bíblica, diversas referências à punição da prostituição homossexual (1Rs 14.24; 22.47; 2Rs 23.7) em cumprimento da lei, mas nenhuma referência à punição de homossexuais que tenham se relacionado amorosa e sexualmente fora do contexto da adoração pagã. Ou nós admitimos a ridícula hipótese de que não havia nenhum homossexual entre os hebreus, ou aceitamos que, nesse caso, os juízes hebreus deixavam passar um crime sem punição; ou então aceitamos que o que a lei realmente condenava era a homossexualidade praticada como prostituição religiosa, e não a homossexualidade em geral.

CRISTO E A HOMOSSEXUALIDADE: O SILÊNCIO DOS EVANGELHOS


Uma das perguntas mais comuns quando se trata da relação entre homossexualidade e Cristianismo é se é possível ser homossexual e evangélico. Se por “evangélico” entende-se o membro de igrejas cristãs do ramo evangélico, então a resposta é: dificilmente. A maioria das igrejas evangélicas possui terrível aversão à homossexualidade. Para que um homossexual se torne membro de uma dessas igrejas, ele precisará sacrificar sua vida amorosa e emocional, ou ter uma vida dupla, vivendo suas experiências amorosas de forma oculta, como costuma acontecer. Porém, se por evangélico se entende o indivíduo que pauta sua vida pelos Evangelhos, que contêm a mensagem de Cristo, a resposta é sim. É plenamente possível ser homossexual e seguir fielmente os ensinamentos de Cristo Jesus. Isso porque não há nas palavras de Jesus, registradas nos Evangelhos, absolutamente nenhuma menção condenatória à homossexualidade ou à prática do relacionamento amoroso entre duas pessoas de mesmo sexo.

O simples fato de os Evangelhos não mencionarem a homossexualidade já deveria servir de advertência àqueles que buscam na Bíblia condenação para tudo o que não se encaixa na versão do mundo em que preferem viver. Todo cristão sério e ciente do papel supremo de Cristo e seus ensinamentos para a vida cristã sabe que tudo o que nos é necessário para a salvação foi dito pelo Senhor. Todo o restante da revelação bíblica está subordinado a Jesus e suas palavras. Aceitar isso é ser, de fato, evangélico.

O ensinamento moral de Jesus se baseia, como já dissemos, em dois pilares: o mandamento supremo (Mt 22.34-40; Mc 12.28-34; Lc 10.25-27; Jo 13.34,35; 15.12) e a regra áurea (Mt 7.12). Quem segue esses princípios conhece e guarda a doutrina de Cristo. Sobre os pecados ligados à vida amorosa e sexual, Jesus condenou o adultério e os desejos impuros do coração (Mt 5.27-30), o divórcio sem causa (Mt 5.31,32; 19.1-12) e a incontinência sexual (Mt 15.19), mas, como foi dito, não fala sobre a homossexualidade.

OS TEXTOS DE SÃO PAULO


Nenhum autor dentre os escritores sagrados do Cristianismo dispensou a mesma atenção à homossexualidade que São Paulo. Aliás, ele é o único a tratar do tema. São Judas e São Pedro, que falam sobre Sodoma e Gomorra, não se referem ao assunto. Essa peculiaridade deve ser o ponto de partida para a correta interpretação da visão paulina acerca da homossexualidade.

O primeiro fator relevante são as cartas em que o apóstolo trata da homossexualidade. A primeira é a carta aos romanos. Qualquer estudante de História Antiga sabe que o clima moral da Roma da época de Nero, quando essa carta foi escrita, não era dos melhores. O adultério, a prostituição, a violência sexual e outras práticas reprováveis eram incentivados pelo imperador e sua corte hedonista. A segunda carta que trata do tema é a Primeira aos coríntios. Corinto, capital da província da Acaia, era um importante centro comercial e religioso do Império Romano, famoso pelo santuário da deusa Afrodite, denominada Vênus pelos romanos, onde serviam cerca de mil hieródulas, ou prostitutas sagradas, e dezenas de homens que se prostituíam como forma de adoração à deusa. A terceira epístola é a primeira carta de São Paulo a Timóteo, quando este atuava como bispo de Éfeso e supervisor das igrejas da Ásia. O propósito dessa carta era instruir Timóteo no tocante à administração das igrejas cristãs no Império Romano. Portanto, essas cartas foram escritas para igrejas que viviam realidades sociais concretas, e é o contexto em que viveram essas pessoas que precisamos considerar na análise dos textos.

CARTA AOS CORÍNTIOS: "SODOMITAS" E "EFEMINADOS"

Em 1Co 6.9,10 está escrito:

Ou não sabeis que os injustos não herdarão o reino de Deus? Não vos enganeis: nem impuros, nem idólatras, nem adúlteros, nem efeminados, nem sodomitas, nem ladrões, nem avarentos, nem bêbados, nem maldizentes, nem rou-badores herdarão o reino de Deus”.

São duas as palavras que trazem a homossexualidade à baila: efeminados e sodomitas. Num flagrante de péssima tradução, a NVI traz o seguinte texto:

Vocês não sabem que os perversos não herdarão o Reino de Deus? Não se deixem enganar: nem imorais, nem idólatras, nem adúlteros, nem homossexuais passivos ou ativos, nem ladrões, nem avarentos, nem alcoólatras, nem caluniadores, nem trapaceiros herdarão o Reino de Deus”.

Ao traduzir “efeminados” e “sodomitas” por “homossexuais passivos ou ativos”, a NVI comete a impertinência de pôr na boca de São Paulo um conceito que só seria criado quase vinte séculos após a morte do apóstolo. Ao contrário da NVI, a Bíblia de Jerusalém, célebre por sua perfeição na tradução da maioria dos textos, traz o seguinte:

Então não sabeis que os injustos não herdarão o Reino de Deus? Não vos iludais! Nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os depravados, nem as pessoas de costumes infames, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os injuriosos herdarão o Reino de Deus”.

Onde Almeida põe “efeminados”, a BJ traz “depravados”, e onde Almeida traz “sodomitas”, a BJ traduz “pessoas de costumes infames”. O que justifica essa diferença de tradução? Afinal, efeminado e depravado não são sinônimos na língua portuguesa. A questão está nas palavras utilizadas por São Paulo no texto grego.

O vocábulo traduzido por “efeminados” (TEB e Almeida), “depravados” (BJ) ou “homossexuais passivos” (NVI) é o grego málakos. Essa palavra tem dois sentidos básicos. Primeiramente, málakos significa “delicado”, “suave ao toque”, donde a TEB e Almeida traduziram “efeminado”. Com o sentido de delicado, málakos aparece nas Escrituras referindo-se a vestimentas, como por exemplo, em Mt 11.8 (“roupas finas”, gr. málakos himatismos) e Lc 7.25 (“roupas finas”, gr. málakos himatismos). Porém, málakos também significa “doente”, derivado de malakía, traduzida por “doença” em Mt 4.23; 9.35 e 10.1. Como é óbvio, málakos não é usado por São Paulo com o significado de “doente físico”, e sim como “indivíduo moralmente enfermo”. Assim se expressa o especialista em grego W.E. Vine: “Efeminado: (b) metaforicamente, num sentido ruim, diz respeito a “efeminados” (1Co 6.10), não simplesmente acerca de um homem que pratica formas de lascívia, mas a pessoas em geral, que são culpadas do hábito dos pecados da carne, voluptuoso”. Fica claro para o leitor que a tradução da NVI é totalmente execrável, e que a que mais se aproxima do original é, sem dúvida, a Bíblia de Jerusalém. Málakos não é o homossexual passivo, nem o homem “efeminado” (o próprio conceito de efeminado varia de cultura para cultura; o que é próprio da mulher em uma cultura pode ser “coisa de homem” em outra, e vice-versa), mas qualquer indivíduo, homem ou mulher, que se entrega aos prazeres sexuais, sem domínio sobre seus desejos.

A outra palavra, que foi traduzida como “sodomitas” (Almeida), “pederastas” (TEB), “homossexuais ativos” (NVI) e “pessoas de costumes infames” (BJ) é o grego arsenokoitai, literalmente “leito masculino”, “cama do macho”. De onde os tradutores da NVI tiraram a idéia de que quem se deita na cama de um macho é “homossexual ativo” não sabemos. O que se sabe é que nem málakos nem arsenokoitai são termos usados na literatura grega para descrever os homossexuais. Quanto ao termo arsenokoitai, é quase certo que se trata de um neologismo criado por São Paulo, visto que não aparece em nenhum documento grego antes dele; a associação de arsenokoitai com “sodomia” é posterior ao século 2. É tão evidente a dificuldade de interpretação que Almeida usa “sodomita”, que serviu como tradução para kadesh (prostituto religioso) nas Escrituras Hebraicas, para verter para a língua portuguesa o grego arsenokoitai. Mantendo seu primor na tradução, a BJ traduziu como “pessoas de costumes infames”, sem indicar se tratava de homens ou mulheres, embora o sentido mais provável seja o de prostitutos, como aparece nas versões inglesas (a exemplo da New International Version). É o mesmo termo arsenokoitai que aparece em 1Tm 1,9.10 (TEB): “Pois compreendamos bem o seguinte: a lei não é feita para o justo, mas para indivíduos insubmissos e rebeldes, ímpios e pecadores, sacrílegos e profanadores, parricidas e matricidas, homicidas, libertinos, pederastas, mercadores de escravos, mentirosos, perjuros e para tudo o que se opõe à sã doutrina”. Sobre 1Co 6.9,10, a Nova Bíblia Comentada Oxford traz o seguinte rodapé: “Os termos gregos traduzidos como prostitutos masculinos e sodomitas não se referem aos ‘homossexuais’, como em inapropriadas traduções mais velhas; ‘masturbador’ e ‘prostitutos masculinos’ podem ser uma melhor tradução”.

CARTA AOS ROMANOS: O SEXO CONTRA A NATUREZA

Finalmente, temos o texto de Rm 1.26,27:

Por causa disso, Deus os entregou a paixões infames; porque até as mulheres mudaram o modo natural de suas relações íntimas por outro, contrário à natureza; semelhantemente, os homens também, deixando o contato natural da mulher, se inflamaram mutuamente em sua sensualidade, cometendo torpeza, homens com homens, e recebendo, em si mesmos, a merecida punição do seu erro”.

Nossa abordagem desse texto parte de duas análises: (1) O que São Paulo entende como natural? (2) Qual é contexto histórico e textual dessa passagem?
Diz o apóstolo que “até as mulheres mudaram o modo natural de suas relações íntimas por outro, contrário à natureza”. O termo grego physis (“natureza”) é derivado de phyõ, “dar, produzir, causar”, e tem o sentido de causa primordial de alguma coisa; o conjunto de todos os seres que constituem o universo; força ativa que estabeleceu e conserva a ordem natural de tudo quanto existe; temperamento do indivíduo; e espécie, qualidade. Considerando esses significados, podemos dizer que:

1) Se por natureza São Paulo entende o conjunto dos seres vivos, então a homossexualidade não é antinatural. Os biólogos já comprovaram relações sexuais entre animais do mesmo sexo em mais de 450 espécies, como leões, moscas, girafas, pingüins, veados, macacos, gaivotas, golfinhos etc. As gaivotas tornaram-se, inclusive, um dos símbolos do movimento gay, visto que elas constituem pares homossexuais por toda a vida.

2) Ainda que entre os animais não houvesse a prática de sexo homossexual, isto não significaria absolutamente nada, visto que o comportamento animal não é parâmetro para os relacionamentos humanos. Caso contrário deveríamos adotar como natural a lei do mais forte, exterminando para nosso proveito qualquer pessoa mais fraca do que nós mesmos; teríamos de adotar como natural a poligamia, visto que na maioria esmagadora das espécies o macho possui várias fêmeas; em caso de emergência, deveríamos enxergar como natural o abandono de crianças e idosos, pois é isso que fazem várias espécies quando estão em risco; não poderíamos condenar a mãe que viesse a devorar os filhos, ou a mulher que viesse a matar o marido depois da cópula, porque isso acontece em várias espécies animais. Enfim, se o comportamento dos seres vivos fosse o elemento definidor de “natural”, deveríamos desprezar tudo o que entendemos por cultura, que é exatamente o que acrescentamos à natureza, alterando-a, modificando-a para nosso benefício.

3) Se natureza tem o sentido de “natureza humana”, a ordem natural estabelecida por Deus para a humanidade, então a homossexualidade não é antinatural, pois, como já demonstramos, a orientação sexual homossexual é parte elementar da personalidade de diversos seres humanos. A maior objeção à “naturalidade” da homossexualidade é o fato de que um relacionamento homossexual não resulta na geração de uma nova vida. Essa idéia se baseia na convicção de que o papel do sexo é apenas a reprodução. Apesar disso, ninguém trata como condenável um casal heterossexual onde um dos componentes é estéril. Embora a possibilidade de reprodução seja tão nula quanto num relacionamento homo, isso não é levado em consideração. O fato é que o sexo tem muitas outras funções sociais, biológicas e culturais além da reprodução, como, por exemplo, a obtenção de prazer, a solidificação de relacionamentos amorosos, a expressão da afetividade, a canalização de energia para fins benéficos à saúde física e mental, dentre outros. E em todas essas funções o ato sexual homo é tão possível e satisfatório quanto o hétero.

4) Caso “natureza” seja o temperamento individual de cada um, então podemos entender que é antinatural um homem hétero praticar sexo com outro homem, e é também antinatural uma mulher hétero praticar sexo com outra mulher. Mas, seguindo o mesmo raciocínio, é antinatural um gay copular com uma mulher, ou uma lésbica praticar sexo com um homem; eles estariam indo contra sua natureza, contra sua orientação sexual.

O fato é que, independentemente do que São Paulo entendia por “natureza” ou “natural”, é no contexto histórico e textual de Rm 1.26.27 que encontraremos o sentido das palavras do apóstolo. A simples exegese do termo “natureza” não ajuda em nada a compreender o pensamento do apóstolo. Em 1Co 11.14, por exemplo, São Paulo usa o mesmo termo physis, “natureza”: “Ou não vos ensina a própria natureza ser desonroso para o homem usar cabelo comprido?”. Ora, é fato consumado que a natureza do cabelo, seja de homem ou mulher, é crescer. Contudo, São Paulo afirma ser antinatural o homem usar cabelos longos. Fica claro para o leitor que o conceito de “natureza” explicitado nessa passagem é essencialmente cultural, e não algo próprio da natureza física dos seres humanos; em outras palavras, embora seja próprio do cabelo masculino crescer como o feminino, no universo cultural de São Paulo os homens deviam manter os cabelos curtos. Trata-se de um conceito pessoal e limitado, não de um princípio universal.

Os vv. 26 e 27 estão inseridos num conjunto onde São Paulo discorre sobre a idolatria e o pecado como conseqüências da rejeição do Deus verdadeiro. Seu comentário começa nos versículos 18 e 19: “A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça; porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou”. São Paulo acusa os homens de substituir a verdade pela injustiça, a partir do momento em que rejeitam o conhecimento de Deus. Esse conhecimento não é nenhum conceito místico ou transcendental, mas uma revelação que se manifesta na própria natureza humana. O ato humano de rejeitar a Deus e abraçar a injustiça resultará numa queda que levará o indivíduo cada vez mais para longe do Criador.

Além de haver alguma coisa no próprio homem que o leva a pressupor a existência de Deus, o mundo físico, com sua grandeza e perfeição, aponta para um Criador, que é poderoso (pois se não tivesse poder não teria criado coisa alguma) e divino (apenas Deus poderia possuir tanto poder e conduzir à criação de um mundo tão impressionante). Portanto, ninguém tem desculpa para ignorar Deus: “Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis” (v 20).

Apesar da evidente revelação divina no mundo físico, os homens se recusaram a aceitá-la. Ao invés disso, buscaram explicar a divindade através de teorias e práticas religiosas equivocadas, que acabaram por levá-los à idolatria, adorando não apenas imagens de homens, mas também de animais: “Porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato. Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos, e trocaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis” (vv 21-23).

Em seguida à idolatria vêm as práticas religiosas orgíacas: “Por isso, Deus entregou tais homens à imundícia, pelas concupiscências de seu próprio coração, para desonrarem seus corpos entre si” (v 24). Não devemos perder de vista que a imoralidade sexual a que São Paulo se refere não é a imoralidade em seu sentido lato, como a prostituição ou o adultério. Ele fala de uma imoralidade que é conseqüência da idolatria. Sem dúvida alguma, ele tinha em mente os cultos de orgias praticados em Roma (onde estavam seus leitores), especialmente o que ocorria na corte de Nero. As bacanais (de onde vem o termo bacanal, que na língua portuguesa designa orgia sexual), festas em honra de Baco, ou Líber, deus do vinho e da alegria carnal, descambavam em verdadeiras orgias públicas, onde homens e mulheres se misturavam e faziam sexo sem nenhum critério ou distinção, fosse com homem ou com mulher, movidos pelas mais loucas paixões carnais. O culto de Príapo, deus romano da potência sexual (pois os romanos tinham deuses para praticamente tudo), era também realizado em meio às mais estranhas orgias. Praticava-se sexo genital, anal, oral, com animais, com crianças, sem distinção de parceiros ou parceiras. Homossexuais e heterossexuais se misturavam, e, cegados pela embriaguez, faziam sexo com que lhes aparecesse na frente. Esse era o padrão de moralidade sexual que São Paulo e seus leitores conheciam, e é contra essa imoralidade sem limites que ele protesta.

Pois eles mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura em lugar do Criador, o qual é bendito eternamente. Amém!” (v 25). Novamente o apóstolo menciona a idolatria e cita outra vez as práticas reprováveis dos cultos pagãos (nos vv. 26,27). Nos vv. 28-32, São Paulo prossegue descrevendo a espiral descendente do homem que se afasta de Deus: “E, por haverem desprezado o conhecimento de Deus, o próprio Deus os entregou a uma disposição mental reprovável, para praticarem coisas inconvenientes, cheios de toda injustiça, malícia, avareza e maldade; possuídos de inveja, homicídio, contenda, dolo e malignidade; sendo difamadores, caluniadores, aborrecidos de Deus, insolentes, presunçosos, inventores de males, desobedientes aos pais, insensatos, pérfidos, sem afeição natural e sem misericórdia. Ora, conhecendo eles a sentença de Deus, de que são passíveis de morte os que tais coisas praticam, não somente as fazem, mas também aprovam os que assim procedem”.

Não podemos isolar os vv. 26-28 de seu contexto anterior e posterior. Os homens e mulheres que São Paulo descreve não são homens e mulheres homossexuais, mas pessoas reprováveis que se entregam à idolatria e acabam arrastadas por uma corrente de imoralidade sexual e outros pecados ainda piores. Presas da idolatria imoral, tais pessoas acabam violando sua própria natureza, praticando atos sexuais opostos à sua inclinação sexual, quebrando os vínculos de amor familiar, desrespeitando as relações amigáveis estabelecidas pelos homens em sociedade, inchando-se de luxúria e orgulho, sem nenhum respeito por Deus. Entretanto, imaginar que duas pessoas adultas, responsáveis por seus atos, unidas por amor e respeito, sempre se encaixam nessa descrição de São Paulo só porque são de mesmo sexo não é apenas ir contra todo bom senso e contra a realidade. É também praticar julgamento temerário (pois se parte do pressuposto de que todo homossexual é perverso, imoral, sem amor pela família, idólatra, cruel, incapaz de amar alguém) e ignorar a verdadeira mensagem bíblica.

INCLUSÃO ECLESIÁSTICA


O Cristianismo não pode ser compreendido apenas como uma estrutura religiosa, com liturgia, doutrinas e práticas rituais pré-estabelecidas. Antes de mais nada, a fé cristã é comprometimento com um estilo de vida pautado nos ensinamentos de Jesus Cristo, seus apóstolos e profetas. Ser cristão não é apenas levar o nome de Cristo, mas viver como ele viveu (1Jo 2.6). Por essa razão, é indispensável que a Igreja tenha um posicionamento claro, à luz da Bíblia Sagrada, sobre seu papel como agência propagadora do Reino de Deus e preparadora de almas para a vida eterna. Não basta às igrejas fornecer aos seus membros reuniões e cultos, momentos de adoração e comunhão; elas também precisam orientá-los, com amor e respeito à liberdade humana e cristã, sobre o caminho que pode levá-los para mais perto do modo de vida desejado por Nosso Senhor Jesus Cristo. Para tanto, a Igreja pauta sua atividade pela ética cristã, retirada das páginas da Palavra de Deus.

No tocante ao tratamento dado aos homossexuais, a maior parte das igrejas cristãs tem mantido uma postura excludente, deixando-os à margem da vida eclesiástica. A maioria dos grupos cristãos não admite homossexuais entre seus membros, a menos que deixem de ser homossexuais. Para “curá-los”, alguns propõe tratamento psicológico, enquanto outros sugerem exorcismo. Mesmo os que admitem que a homossexualidade não seja uma doença, possessão maligna ou pecado defendem que, se ser homossexual não é condenável, vivenciar a homossexualidade é erro mortal. O cristão homossexual é forçado a sacrificar sua própria integridade enquanto pessoa humana, proibido de se realizar amorosa e sexualmente, caso queira manter-se em comunhão com as diversas confissões cristãs, sejam elas protestantes, evangélicas, pentecostais ou católicas.

Porém, embasada numa visão esclarecida, humana e cristã da Bíblia Sagrada, a Igreja cristã inclusiva reconhece a homossexualidade como uma manifestação natural e legítima da sexualidade humana, parte indissociável da pessoa individual, sem a qual ela não seria o que é. Nem pecado, nem doença, nem obra maligna. Tão-somente uma manifestação da diversidade que caracteriza toda a obra de Deus.

A NECESSIDADE INEGOCIÁVEL DA INCLUSÃO ILIMITADA

Reconhecemos que é um contra-senso falar em “igreja inclusiva”, porque o Evangelho, por si só, é a própria essência da inclusão. Porém, como as opiniões e preconceitos humanos acabam ganhando na Igreja um espaço que jamais deveriam ter possuído, torna-se necessário que sempre retornemos aos princípios bíblicos para que a mensagem inclusiva de Cristo não seja substituída pela vontade dos homens.

A base da mensagem inclusiva é o amor ilimitado de Deus pela humanidade. Diz o Evangelho que “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16). Em Jo 6.37 estão registradas as seguintes palavras de Jesus: “Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora”. Ao contrário do Senhor, muitos de seus seguidores têm desprezado essa mensagem, selecionando quem pode ou não ter acesso à casa de Deus.

Falando sobre a obra incomparável de Jesus, disse São Paulo: “Pois todos vós sois filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus; porque todos quantos fostes batizados em Cristo, de Cristo vos revestistes. Dessarte, não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gl 3.26-28). “No qual não pode haver grego nem judeu, circuncisão nem incircuncisão, bárbaro, cita, escravo, livre; porém Cristo é tudo em todos” (Cl 3.11). Todas as diferenças que os homens usam para provocar divisões e lutas perdem a razão de ser em Cristo. Nele, todas as distinções são anuladas pelo poder do Amor.

Na carta aos Romanos 10, São Paulo discorre detalhadamente sobre o que diferencia a justiça da lei mosaica daquela que foi trazida por Jesus. O apóstolo afirma claramente que a lei que Moisés entregou aos filhos de Israel foi uma tentativa de firmar a justiça humana, baseada nas obras e no cumprimento de mandamentos, em oposição à justiça divina, que está em Cristo: “Porquanto, desconhecendo a justiça de Deus e procurando estabelecer a sua própria, não se sujeitaram à que vem de Deus. Porque o fim da lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê. Ora, Moisés escreveu que o homem que praticar a justiça decorrente da lei viverá por ela” (Rm 10.3-5). Em oposição à “justiça” humana, vem a justiça de Jesus:

Mas a justiça decorrente da fé assim diz: Não perguntes em teu coração: Quem subirá ao Céu?, isto é, para trazer do alto a Cristo; ou: Quem descerá ao abismo?, isto é, para levantar Cristo dentre os mortos. Porém que se diz? A palavra está perto de ti, na tua boca e no teu coração; isto é, a palavra da fé que pregamos. Se, com a tua boca, confessares Jesus como Senhor e, em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Porque com o coração se crê para justiça e com a boca se confessa a respeito da salvação. Porquanto a Escritura diz: Todo aquele que nele crê não será confundido. Pois não há distinção entre judeu e grego, uma vez que o mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam. Porque: Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” (vv 6-13).

Para a glória de Deus, essa é a mensagem do Evangelho: todo o que crer em Jesus e o confessar como Senhor será salvo, pois “todos têm o mesmo Senhor”, sejam ricos ou pobres, brancos ou negros, homens ou mulheres, homo ou heterossexuais, de quaisquer países, etnias ou situação política. Na Igreja de Cristo não há, nem jamais pode haver, espaço para a discriminação preconceituosa, visto que “todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo”.

A única justificativa que poderia haver para impedir a integração plena dos homossexuais na Igreja seria a acusação de que eles estão sob a prática de pecado, o que absolutamente não é verdade. Diante disso, o único caminho para qualquer igreja que queira ser digna do Nome de Jesus é o caminho da inclusão ilimitada.

CASAMENTO HOMOSSEXUAL


Muitos questionam a legitimidade da expressão “casamento homossexual”, baseados na afirmação de que casamento pressupõe a existência de um casal, i.e., macho e fêmea. Essa idéia encontra respaldo inclusive nos dicionários, onde casamento é definido como “união solene entre duas pessoas de sexos diferentes, com legitimação religiosa e/ou civil”. Entretanto, o que costuma ser ignorado é o fato de que “casal” não é a raiz de “casamento”; antes, a raiz comum a ambas as palavras é o termo “casa”, bem como o verbo “casar”, que significa “juntar na mesma casa”. O sufixo –mento, tem a acepção de ‘ação expressa pelo verbo’. Logo, casamento significa “ação de colocar na mesma casa”. Casal é o par que vive na mesma casa, independentemente de sexo57. Diante dessa constatação, podemos asseverar que dois homens ou duas mulheres que convivem amorosamente na mesma casa constituem um casal, da mesma maneira que um homem e uma mulher.

A finalidade básica do casamento, segundo a concepção predominante na cultura ocidental judaico-cristã é a procriação e a criação de filhos. Cabe à mulher criar os filhos e ao homem prover o lar. Representando essa concepção, temos as palavras matrimônio (utilizada como sinônimo de casamento) e patrimônio (bens adquiridos por alguém), derivadas, respectivamente, dos termos latinos mater (mãe) e pater (pai). O resultado da união da mãe (geradora) com o pai (provedor) é a família, entendida como homem, mulher e filhos. É claro que essa visão familiar não é utilizada desde o começo das civilizações humanas nem é universal. Ela é fruto da sociedade européia da Idade Moderna, da nascente ordem burguesa (sendo por isso mesmo denominada “família burguesa”). Há casos em que a família é entendida como um homem, várias esposas e os filhos; em outros, além do pai, da mãe (ou mães) e dos filhos, são também incluídas as concubinas, os genros e os escravos. Nos dias atuais, vemos a formação de famílias onde há apenas o pai, ou apenas a mãe, e o filho (ou filhos). Há também famílias onde os papéis de pai e mãe são representados por avós, ou tios. Enfim, a constituição familiar é tão multiforme quanto multiformes são as manifestações culturais e sociais da humanidade. Porém, em todos os casos, um conc
eito permanece: a família é um núcleo de formação humana, onde há pessoas unidas por laços sociais, sangüíneos e/ou afetivos; lugar onde novos membros da sociedade aprenderão valores éticos, morais e culturais; espaço de segurança, amor e provisão. Esses é que, de fato, são os autênticos elementos de uma família, e não a presença de sexos distintos, como exige a visão tradicional.

É possível, portanto, que um casal homossexual constitua uma família? A resposta, naturalmente, é sim. O questionamento básico não deve ser se dois ou homens ou duas mulheres podem procriar. Reduzir o conceito de família a uma mera questão de sexo e reprodução é rebaixá-lo ao nível dos irracionais. O que devemos indagar é se um casal gay pode amar, se pode transmitir valores, se pode cuidar da segurança e provisão um do outro e de possíveis filhos, naturais ou adotivos. E qualquer um que tenha um mínimo de bom senso e honestidade sabe que um casal homossexual pode garantir a provisão dessas coisas tão bem quanto um casal hétero.

A abordagem do casamento homossexual obrigatoriamente conduz a outras questões importantes. A primeira delas é a discussão se um casal gay poderia criar uma criança sem interferir em seu desenvolvimento. De acordo com os opositores da adoção por homossexuais, as crianças seriam prejudicadas porque seriam influenciadas a se tornarem homossexuais, não teriam o pai e a mãe como referenciais e sofreriam com a discriminação das outras crianças. A falta de um referencial do sexo ausente não parece constituir problema – segundo a psiquiatra Carmita Abdo, a criança é capaz de reconhecê-lo em outras pessoas próximas. É o que acontece com filhos de pais solteiros. Gays tampouco induzem crianças à homossexualidade, concluiu mais de uma dezena de estudos diferentes. Outra pesquisa, apresentada pela professora Charlotte Patterson na Associação Americana de Psicologia, em 1995, mostrou que hábitos de crianças criadas por lésbicas eram praticamente idênticos aos dos filhos de heterossexuais. Assistiam aos mesmos programas de televisão, brincavam com os mesmos brinquedos, se relacionavam com os mesmo amigos no colégio. Citando um artigo da médica, psicanalista e antropóloga Elizabeth Zambrano:

“Há um ditado que diz “Filho de peixe, peixinho é”. Então, será que podemos dizer que “Filho de gay, gayzinho é”? Acontece que nem sempre as “certezas” dos ditados populares são comprovadas nas pesquisas práticas. É esse o caso da adoção por homossexuais (a chamada homoparentalidade), porque há o mito social que o fato dos pais serem gays pode ter conseqüências negativas para a criança adotada. A preocupação com o bem-estar da criança é legítima, mas até hoje não houve nenhuma comprovação para esse receio, segundo pesquisas que vêm sendo realizadas, desde os anos 80, em países como EUA, Canadá, Bélgica e, ultimamente, França.

Alguns teóricos acreditam que uma criança com pais homossexuais irá sofrer com uma série de problemas. Por exemplo, ela não vai ter noção da diferença entre os sexos; ela terá dificuldades na formação da sua identidade sexual por falta de um modelo do mesmo sexo que o seu; terá falhas e problemas no desenvolvimento psíquico; terá maior probabilidade de adquirir uma doença mental ou uma depressão. Finalmente, terá maior “risco” de ser também homossexual, sofrendo muito com os preconceitos sociais. Essas teorias, entretanto, não estão sendo comprovadas pelos dados das experiências práticas.

Essas pesquisas revelam que o fator mais importante para o bom desenvolvimento social e psíquico das crianças é a qualidade da sua relação com seus pais/mães. O modelo de identidade, tanto para um sexo quanto para o outro, é dado pela presença de outros adultos importantes (avós, professores, amigos dos pais/mães) e pela própria cultura. As possibilidades de essas crianças adotadas por gays serem homossexuais ou sofrerem de alguma doença mental são as mesmas de outras crianças do restante da população.

As pesquisas revelam, também, que as crianças adotadas por homossexuais aprendem quando e como combater a discriminação, da mesma forma que as crianças pertencentes a outros grupos minoritários (como índios e judeus), escolhendo os amigos com quem vão poder compartilhar essa informação.

É normal que o jovem, na época da adolescência, tenha mais problemas de relacionamento com os pais, pois é o momento no seu desenvolvimento em que precisa marcar que é autônomo e diferente deles. Nessa ocasião, a homossexualidade dos pais pode se tornar um “cavalo de batalha” para o jovem, da mesma forma que outras características dos pais serão usadas pelos adolescentes em outros tipos de família (por exemplo, se os pais forem negros).
O conjunto dos trabalhos realizados nos EUA, Canadá, Bélgica e França ao longo dos últimos vinte anos apresenta um resultado tão contundente que estimulou a manifestação de várias entidades de classe nos Estados Unidos em favor da liberação da adoção por homossexuais, como a Associação Americana de Psicanálise, a Associação Americana de Pediatria, a Associação Americana de Antropologia, entre outras de igual peso. No Brasil, foram divulgadas algumas opiniões particulares de psicanalistas, antropólogos, médicos, juízes, desembargadores e outros, cujos conteúdos nem sempre são concordantes.

Também no Brasil está em andamento, desde setembro de 2004, o projeto de pesquisa do Instituto de Acesso à Justiça (IAJ), chamado “Direito à Homoparentalidade”, apoiado pelo Programa de Apoio a Projetos em Sexualidade e Saúde Reprodutiva (PROSARE) e Fundação MacArthur. Os dados preliminares coletados de pesquisas feitas em Porto Alegre/RS vêm confirmando os resultados dessas pesquisas realizadas em vários lugares do mundo.
Tendo em vista a contradição que existe entre as novas formas e a maneira tradicional de pensar e agir em relação à adoção por pais homossexuais, torna-se urgente fazer uma reflexão maior, não só sobre as causas que impedem a ampla divulgação dos resultados das pesquisas internacionais a esse respeito, mas também sobre o porquê de se insistir sobre a sexualidade dos pais, quando se trata da adoção.

Será que a sexualidade deveria ser um elemento para distinguir uma categoria de pais? A capacidade de ser pai ou mãe tem alguma coisa a ver com gênero e sexualidade? Nas famílias formadas por homossexuais deve-se discutir mais sobre a homossexualidade ou sobre a capacidade deles de exercerem a paternidade? Por que deveríamos distinguir pais/mães homossexuais de outros pais/mães?

É necessário lembrar a decisão do juiz da 2ª Vara da Família de Porto Alegre, Roberto Lorea, que afirma, em sentença relacionada ao “casamento gay”, brilhante pela simplicidade e pela clareza, que, segundo a Constituição de 1988, nenhum cidadão brasileiro poderá sofrer discriminação de qualquer tipo. Não há, assim, necessidade de especificar o tipo de casamento, pois só existe um. Não seria, portanto, hora de começarmos a exigir que essas pessoas fossem respeitadas no seu “desejo de ter filhos” e tivessem acesso à adoção sem serem “questionadas” quanto às suas práticas sexuais, da mesma forma como não são “questionados” todos os outros cidadãos brasileiros?”

Outra questão suscitada é a seguinte: ainda que o casamento de homossexuais seja legítimo do ponto de vista moral e cristão, como fica a situação de gays e lésbicas em países onde o casamento civil não é legal? Ora, como todos sabemos, o início de instituições como o casamento e a família antecedem historicamente a qualquer legislação civil que os regulamente. Portanto, mesmo que o Estado não conceda aos homossexuais o direito de se casarem, a Igreja, como representante do Reino de Deus – o qual não está sujeito a nenhuma ordenação humana – tem o direito e o dever de preencher essa lacuna, apoiando e abençoando o compromisso daqueles que desejam unir-se por amor através dos laços do casamento. Esse casamento, embora sem valor legal, é de fato e de direito reconhecido como uma união legítima e aprovada diante de Deus.